Ezequiel Migri

Ezequiel Migri atua na área de Marketing e Propaganda, compondo jingles, vinhetas e construindo ambientes para marcas e produtos em lançamentos e já existentes no mercado. Na hora de escrever, visita vários temas, alcançando um pouco de tudo, pois à noite surge uma notícia ruim, mas de manhã a visão do velho sorrindo para os brotos de feijão rompendo a terra, acelera de novo a vida.

O berço que me devora

Eu aguardava na antessala.

– Brasília me traz o cidadão.

Respirei fundo aguardando o chamado, mas de onde estava sentado vi pela fresta da porta, a Brasília com um objeto como um funil de metal e o excelentíssimo Higienizável, cuspiu dentro.

-Pode levar o cidadão.

Uma escarradeira. Horrível até de descrever.

– Brasília! Peça para limparem o banheiro da visita. O povo deixou parte de sua via lá. Sabia Brasília que ali está toda a descrição da vida do cidadão? É cientificamente provado. Digo com certeza que aquilo é a vida do cidadão.

– Entre cidadão. Deduzi, visto que ele não chamou Brasília para pegar o outro cidadão, o cidadão em questão fosse eu. Entrei.

A figura perfeita do imaginário popular do caso referido. Levantou-se com a voz que acompanha a figura. Estendeu a mão:

– Digníssimo cidadão, sente-se, por favor. Como posso ajudá-lo? Em que posso melhorar sua vida? Duas palavras que não queria mais ligadas a mim; Vida e Cidadão.

– Sou da gráfica. Vim receber o serviço dos cartões de visita.

– Claro, claro, deixa só a Brasília fazer a papelada.

Ele criava avestruz. Elas ficavam bicando a janela dele. As pobres coitadas eram tão magras e o Deleitável, tinha o higiênico costume de jogar ossos e resto de comida pela janela e então; com fome, bicavam até lhe atirem restos.

– Brasília, traz a “Emenda”. Vou dar um jeito nesse povo. Emenda era uma espingarda municiada com balas de borracha que ele usava com bastante satisfação para manter afastada as avestruzes de sua janela.

O distinto nomeou cada uma:

– Aquela é a educação. Fique longe de mim seu monstrinho. – E mandava bala.

– Segurança quem manda aqui sou eu! E tome bala – A Segurança estava sempre com a cabeça enfiada num buraco. Ele ria e dizia:

– Ela deve estar fazendo alguma investigação com a cabeça enfiada no chão – ele ria.

– Moradia; essa me parece não ter jeito, vive na rua. Mas é bom dar umas borrachadas pra não se subverter.

– E aquela? – perguntei apontando pra uma bem pequena do tamanho de um franguinho – É um frango?

– Ah aquela… Não… aquela é meu orgulho! Nós fizemos umas experiências genéticas. Sabe fico comovido em falar disso porque pensam que ficamos aqui só comendo, bebendo, viajando e não estamos fazendo nada por ninguém. Mas veja só esse caso, gastamos muito em pesquisas, horas de plenários e votações e mais votações e volta as câmaras e plenários, viagens e mais viagens pra trazer modelos e mais modelos. Sabe modelos de trabalhos?

– Modelos… Sim eu sei.

Pois é… Não é fácil não! – interrompeu-se assoando o nariz num arremedo de lágrimas. Recuperou-se com um sorriso e disse em tom solene:

– Conseguimos: Encolhemos a avestruz!

– Vocês fizeram o quê? Encolheram a avestruz? Mas pra quê?

– Ora, ora meu cidadão! – disse meneando a cabeça – Você não entende…

– Entender o quê?

– A vantagem… Claro, desculpe, você não conseguiria entender assim de pronto. Mas eu entendo afinal, a sua vida… bem a sua vida é… bem sua vida é digamos, diferente da minha. rsrsrs… Bem diferente não é?

– É … Creio que sim. Bem diferente.

-É sim – disse ele – com certeza – rsrsrsrsrs – A vantagem meu cidadão é que eu gasto bem, mas bem menos kkkkkk… E ninguém pode dizer que não tenho avestruz. Gostou?! Simples e genial. Como você pode ser incapaz de ver isto kkkkk. É por isso que você tem essa “vida”… kkkkk.

– Continuo não entendendo… Qual o nome da encolhida?

– Saúde.

– Entendi… Agora entendi tudo!

– Mas gostei de você sabe?!

– Não sei se agradeço…

– Imagina não tem de que!

– Justo – respondi

– Vou te contar um segredo – disse me abraçando

– Já sei – respondi – você vai encolher todas as outras.

– Hei?! Você tem jeito pra coisa! Quinze minutos comigo e já tem o “filling”.

Será que me infectei – pensei

– Sim vamos encolher todas! Segurança, a moradia… Bem, a moradia tenho dúvidas?… ela não me dá trabalho?! – diz coçando a barba – Mas é melhor encolhida que da pra empilhar mais. Ah, e tem a tal da EDUCAÇÃO – sua testa franziu, sua expressão mudou. “Educação” saiu numa mistura de ódio e medo – Sim a tal da educação… Eu tento, faço de tudo para mantê-la bem distante daqui, sabe. Mas ela é inteligente, sabia. Não se pode brincar com ela. Outro dia, quando dei por mim, ela estava aqui em meu gabinete. Na hora eu gritei por socorro a guarda. Aí, 5 entraram; e acabou tudo. Mas desde então ela fica lá longe, me espreitando de dia e de noite com seus olhos inteligentes. Ela tem uma cria, sabe? À Escola… fica lá também. Mas eu não estou nem aí! Não dou comida pra escola, não dou apoio pra essa raça. Apoiar pra depois me pegarem? Eu não!… Fica nos observando está vendo? Ela sabe que estamos falando dela! Que animal terrível! Vê? Ela me dá calafrios. Tem um pessoal com nome estranho que vive vindo aí. Pedem licença, dizem que examinam ela depois vêm com uns papéis pra mudar isso mudar aquilo pra ela… Eu; sabe como é, faço que escuto, faço que entendo, e faço que faço. Meu sonho de consumo é encolher cada uma dessas, a segurança, a saúde, a moradia, a educação, até caberem em uma mala só, vendê-las, pegar meu o dinheiro e desaparecer daqui de avião.

 

– Mas gostei de você… sabe que dando um jeito; com muito, mas muito trabalho, você poderia fazer parte disso tudo?

– Sério?

– Não é brincadeira! Kkkkk.

Liberou o pagamento. Me fiz tarde, pedi licença e me despedi, não sem antes ouvir um conselho na saída;

– Meu caro cidadão, se precisar de qualquer coisa conte comigo. E lembre-se; ser um cidadão é a sua vida, seu destino. Não deixe ninguém mudar isso. Parabéns!

Saí tonto do gabinete.

Um cachorro deixou seu DNA na saída e misturei meu pé nele. Pronto!…, lembrei, agora somos um. Minha vida misturada a dele.

Em casa desinspirado, adormeci e num pesadelo vi um povo esfarrapado, esfomeado cantando uma canção que mais parecia seu hino.

E o que me apavora, nem sei se é o original do texto, ou o remendo da verdade da emenda desse arremedo.

Chegamos no fundo do final do fim.

Elaborado, irrevogável veredito, pelo que sei e entendo; aqui é lei e é legal.

Que essa pátria cuspa em si.

Dizia o hino assim:

 

… são tristonhos o fim dos campos sem as flores

Ao seu toque, silencia

Nossas vidas em seu circo de horrores

Prata roubada, usurpada é um corre, corre

Faliu! O amor eterno era cínico

E o lavrador lamenta ter plantado

Meu verde é roubado do Amazonas

Não há futuro e inglórias no passado

Injusta, diz ao povo que se enforque

Veras todos seus filhos numa tumba

Devora quem te ama até a morte

Tu és tão falsa!

És um covil

És tu tão vil… degenerada

Solo de escravos, seu colo é um ardil

Quadrilha armada….

 

Rapaz… não é que perdi a rima?! Mas estava aqui?!

Acho que levaram minha rima!? Mas como que os caras roubaram dentro da minha ideia?

Perdi, perdi! Já era…

Só podia ser Brasil!

E não é que não me lembro mesmo?!…

 

 

Migri

migri.marketing@gmail.com

(35) 98402-7065

8(1) 98732-5050

Histórias de um coração – Meu coração mudo

Meu coração é mudo!

No momento, no instante de te dizer, de te falar; não encontro o som das palavras.

Descobri quase que por acidente quando você chegou

Ainda quando te vejo, e você me pega no susto; meu coração dispara…

Então as palavras circulam as veias, enchem os vasos, elas invadem os pulmões e tomam conta de mim

E nem assim; sai o som

Meu coração despercebe quase tudo ao redor; abandona e ignora cerebelo e seu equilíbrio

A base da reação fica desconexa, torta e abandona ao léu a respiração

Meu mundo altera as substâncias

A erupção da horta é um cuidado

A greve das palavras mudas…

Elas querem seu direito de expressão, querem ir

Querem seguir seu caminho

Acreditam que nasceram para mudarem meu mundo com suas exclamações

E que mesmo após interrogação e ponto final cabe etc., reticências

Descansarem em suas vírgulas, pausas de respiração, os corações cansados

Os assombrados pelo monólogo dos dias esquecidos, pelo silêncio da felicidade

No barulho ensurdecedor das cidades desse mundo surdo

Sufoca a nobreza da verdade

E eu no silêncio do meu frágil e raro mundo do coração mudo

Só queria poder dizer que apesar de tudo, mesmo sem jamais ser;

Acredite… poderia ter sido.

 

Migri

migri.marketing@gmail.com

35 9 84027065

Pra me despedir

Estou só de passagem.

Não quero tomar seu tempo

É que o meu está quase esgotado!

Passei rápido só pra dizer que de tudo o que vale é, e sempre foi  você

Nada mais vale pra valer

Nada mais vale ver

Na hora de fechar, não há outra visão vale levar na retina

Pra sala, deixo no canto a tralha amarrada

Nada vale a pena levar.

É urgente!

Por favor fica comigo.

Tô a pouco

Quase ao ponto

Quase pronto

Às vezes fico louco por ir

Outras quero ficar pra acreditar que você pode me perdoar e acreditar que sempre, sempre te amei

O que aconteceu foi que me perdi, e não consegui voltar

O mundo tem tantos caminhos e é tão fácil se perder

Por favor fica comigo

Estou por pouco!

No labirinto da cidade quantas vezes nos desencontramos por todos esses anos

Quanta esquina eu dobrei antes de você ou você antes de mim

Seria tão lindo você me abraçando na rua

Agora é tarde…

Pareço uma pequena brasa contra esse vento frio

Deixe eu morrer entre o último espaço que há entre meu coração e seus braços.

Sentindo a pulsação do seu coração que batuca em sim pra vida

Enquanto o meu; velho, não.

 

 

Migri

migri.marketing@gmail.com

35 984027065

Histórias de um coração – Meu coração mudo

Meu coração é mudo!

No momento, no instante de te dizer, de te falar; não encontro o som das palavras.

Descobri quase que por acidente quando você chegou

Ainda quando te vejo, e você me pega no susto; meu coração dispara…

Então as palavras circulam as veias, enchem os vasos, elas invadem os pulmões e tomam conta de mim

E nem assim; sai o som

Meu coração despercebe quase tudo ao redor; abandona e ignora cerebelo e seu equilíbrio

A base da reação fica desconexa, torta e abandona ao léu a respiração

Meu mundo altera as substâncias

A erupção da horta é um cuidado

A greve das palavras mudas…

Elas querem seu direito de expressão, querem ir

Querem seguir seu caminho

Acreditam que nasceram para mudar meu mundo com suas exclamações

E que mesmo após interrogação e ponto final cabe etc., reticências

Descansarem em suas vírgulas, pausas de respiração, os corações cansados

Os assombrados  pelo monólogo dos dias esquecidos, pelo silêncio absoluto da felicidade

no barulho ensurdecedor das cidades desse mundo surdo

Sufoca a nobreza da verdade

E eu no silêncio do meu frágil e raro mundo do coração mudo

Só queria poder dizer que apesar de tudo, mesmo sem jamais ser;

Acredite… poderia ter sido.

 

Migri

migri.marketing@gmail.com

(35) 98402-7065

O silêncio das coisas

O vaso quebrou

derramou-se devagar nos dias

Deixou entornar aos poucos o sentimento que você colocou

Partiu-se a peça

Bonito que era; agora refugo de oficina

Aço perdido da matéria-prima que você inventou

Não se sustentava, não se condizia

Não sobreviveu ao calor

Não permanecia além do momento e qualquer distração lhe roubava a vida

Qualquer emoção lhe subtraia a que vinha

Perdeu-se,

Perdia-se

Não sei se por que lento e demorava entender

Não sei se por que rápido e nem viu o que via

Confesso bonito; o que um dia foi lindo

Não foi mal querer…

Solto demais…

Suas pontas ao vento não lhe tornavam capaz de estar

O equilíbrio das coisas se perdia das mãos e caia

Se desfez,

Se desfaz

Sumiu no vão do silêncio dos dias

Sem estalo de beijos, café sem bom dia

Desapareceu entre a inercia das coisas

Bilhetes ao meio, a data esquecida, a flor que não veio

A vaga vazia, a porta trancada, o tilintar das chaves na mesa,

O ”Cheguei; já não chega

Tudo calou-se de vez

– Eu te amo…

Nunca mais ouviu-se na casa

Três palavras trocadas

– Estou indo. Adeus!

Amanhecer em outro lugar

… quero amanhecer em outro lugar

Não amanheço…

Isso parece um filme onde o papel que tenho, não vivo; exerço.

E ao final da fita, o que sera do personagem?

Preso vendo a tela se apagar e todos partirem.

Alguns emocionados, outros achando injusto o final, outros mais que justo, alguns achando que me faltou sofrimento, e outros as lágrimas lamentam minha dor, uns acreditam que perderam tempo, outros querendo continuação. Mas…

Mas ao final todos deixaram a sala.

Todos partem com  suas luzes ascendendo e fico sozinho com as minhas apagando

… me viro do meu jeito.

Sim; saio da sombra, procuro-me atrás do projetor da vida acho-me sem maquiagem no espelho

São outros olhos, outros cabelos.

Mais velho, mas outro.

Ser outro, enquanto o tempo permite, enquanto para mim o tempo existe retificar, ajustar algumas coisas…

Tentar, como puder, do meu  jeito

Assim como quem sabe meu coração em outro peito, ainda que dentro de mim, olhando-me para o que não reconheço

… quero amanhecer em outro lugar

Mas não amanheço…

Querer reinventar-me de forma tal que sem saber que sou eu, tropece em mim

E ser um tão completo estranho para mim, que  não reconheça tropeço e nem tropeçador

… preciso amanhecer em outro lugar

Preciso partir…

Abrir a porta do meu peito e  sair

Caminhar…

Se comigo eu não for, sozinho irei.

Afinal minha identidade aqui, não fala de mim e o número do meu CPF não  justifica quem realmente sou.

Alimento o sonho de um futuro, que ainda que lá eu esteja; jamais estarei

Vejo minhas pegadas espalhadas por uma estrada que nunca pisei

Preciso me desapegar das coisas que eu queria ser e não fui e assim parar de perder esse tempo que me é dado agora com o que sou

Onde está em mim agora o que serei ou o que devo ser?

… quero ir pra casa

Amanhecer onde conheço…

Quero ir pra casa do meu jeito

Do meu jeito…

Sim; o meu jeito!

Desconstruir o sujeito que agora vejo e convivo e acreditar naquele que pode vir a nascer.

Dar luz a mim mesmo

E ainda que seja pelo avesso, me vestir de um novo começo

Aprendi que mesmos os conselhos mais válidos vem com anexo:

“a vida é sua!”

Talvez nisto tenha achado a verdade

Uma passagem, meu passaporte pra casa

Minha formula não é perfeita

Talvez minha despedida não seja a mais perfeita

Mas minha chegada aqui também não foi

Mas o bilhete da sinceridade está em minhas mãos

Estou na plataforma sem mala e sem bagagem e aguardo o apito

Quando embarcar meu trem partira

Vou me acomodar do meu jeito

Sim do meu jeito

Vou dormir pra essa longa viagem.

Não nos falaremos mais por agora.

Vou descansar.

Acordo quando meu trem chegar na estação

Acordarei na minha cidade. Verei o meu sol, tocarei nas portas.

Não se preocupe pequena.

Estarei feliz como voce nunca me viu.

O  importante é que tudo passou e que por maior que tenha sido o grito da dor, o silencio da paz agora me cobriu

Falhei…

Voce sabe e eu sei… mas você sabe também que o que de bom eu queria fazer (se é que algo de bom fiz) e ainda quero; foi e é sincero

Demorou e sofri muito mas, entendi:

“a vida é simples com um segredo”

Entender que cada um responde as coisas dessa vida e reage do seu jeito.

E então, para não sermos devorados por nossa lógica, cálculos, razões;

Para cada erro colocados de um lado da balança existe um contra-pesos para o outro lado, chamado sinceridade, misericórdia e outro perdão.

Descobri ainda outra coisa; que o dono do perdão é o amor.

E quando chegar a hora que toda razão humana e toda pretensa sabedoria se dissipar e em você nada restar; você estará exatamente onde estou.

Abaixara a cabeça e olhando para si percebera que em você não a mais defesa nem argumentos, você entendera além, que na verdade você nunca teve.

Será nesse momento que seus olhos marejados então se esticaram olhando pra o outro lado da balança suplicando por misericórdia então surpresos encontrarão com um par de olhos cheios dela esperando em silêncio  pelos seus.

Aí, e só aí tudo se iluminará.

Você enxergará a luz!

Se dará conta como era tão fácil viver e ser feliz.

Entenderá que quem você precisava que te amasse pra tudo dar certo; sempre, sempre te amou e te amou e te amou e continua te amando.

E o peso do perdão tomará seu lugar na balança a seu favor.

Sempre foi o amor, sempre foi o perdão o real significado da vida

E todos, todos sem excessão precisaremos dele em um momento do outro lado da balança

Digo isso agora porque meus olhos já marejados se esticam para o outro lado da balança, esperando…

Perdoe se não pude fazer mais…

Mas confesso; fiz o que podia, o que minha força dava, o que eu conseguia. Sei que não bastou e sei que errei. Sim falhei…

Mas foi  assim…

I did it my way.

Envenenamento

Poeira, óleo diesel, fumaça,

Dependência, novo jeito, nova moda, novo estilo, nova droga

Via net, via rádio, bebendo seu pensamento por canudo pela tela da televisão

Curto sua curta existência curta, em minha transmissão!

O vício de seguir é a sedução do momento

Sente-se e não se preocupe com nada;

Minha engenharia aperfeiçoara seu

Envenenamento….

A sua tristeza faz meu ibope

O meu truque é por seu choro na sala pra que o telespectador não troque

Conto suas lágrimas pela quantidade de aparelhos ligados ao meu show

Então chore copioso que com todo carinho e amor, vendo seu sentimento pra o meu patrocinador

Não posso resolver tudo agora..

Deixo pro próximo capítulo pra poder aumentar o preço prometendo pra o próximo episódio um público esmagador

Isso não termina…

Seu choro tem que encher minha piscina

Me enriquecer com sua pobreza parece ser mesmo sua sina

Minha foto com autógrafo no seu porta-documento

Querer ser eu; é o seu envenenamento.

Vinte quatro horas online estou a sua disposição

Você manda

Você tem o controle! É só apertar o botão.

Esse é o slogan do grande truque da sua submissão

Não levante fique sentada,

Juntos para sempre, fast-food eternamente

Sou seu amigo e eu não ligo pra sua condição, saúde nem silhueta

Não fique zangada pensando na altura da sua pressão

Feche a porta, a janela

Muita luz atrapalha visão

Você me enxerga melhor no escuro

Onde abro essa porta pra escuridão

Aumente quanto quiser seu consumo

Sacie essa sua fome enquanto isso te consome

Me desligar? Não! Nem por um momento

Enquanto você dorme eu fico hibernando em sua mente o meu conhecimento

Seu dinheiro mantém a nossa relação

Comprei o direito de ir direto na veia alimentando seu coração

Envenenamento…

A nata da situação, o truque do envolvimento o laço da submissão

Arrasto o caos da velocidade em cadeia,

Invento uma verdade na minha mentira e te prendo nessa teia

Tenho que te deixar

Se quiser; pode chorar!

Engarrafo o choro pra vender pra outro show na Europa onde irei morar

Lá seu choro vira chocolate da melhor qualidade, vinho da melhor safra, dinheiro de melhor valor

Não fique assim tão surpresa, decepcionada, quando desço do meu jaguar e subo a bordo da minha nave espetacular

Você sabia que eu ganhava, você me seguiu pelo blog twitter, instagram

Você me deu ibope

Me acompanhou quando eu comprava

Eu pensei que fosse isso que você queria!

Eu vivendo o sonho que você sonhava

Já que você não podia; me financiava.

Eu sou Top!

Não vamos brigar agora né?

Pense assim, você agora  faz parte de mim

Cada vez que pisar em cima de um parafuso do meu jato particular com meu Salvatore Ferragamo; vou lembrar seu nome

Dúvida? Quer ver? Vou pisar e vou dizer. Agora; lá vai:

– FÃ!

Minha saudade é tanta, que já fiz camisetas com meu rosto numa estampa

pra você usar e se despedir de mim no aeroporto,

Mal posso esperar…

Meu empresário gravando, você gritando até as tampas, vendo meu avião decolar

Eu no conforto voando pra o firmamento e você no chão acenando aquele lencinho sujo de bolso e de batom

É um momento tão singelo, tão sincero

Uma troca de energia, uma alegria, um momento meu e seu

Você me dando fama e eu te dando adeus

Mas…

É meio patético confesso!

Nem te conheço! E você soluçando, gritando comigo no ar!

Você é falsa! Não me ama nada. Me deu tudo isso e tá ai pedindo pra eu não partir?

Mas eu entendo….

Eu to mesmo mais pra ir.

Não estou nem um pouco querendo ficar

Não se preocupem…

Logo outro astro vem pra te iludir em meu lugar

C’est La Vie.

A indústria não pode parar.

Somos um universo sem formas de caras e rostos

Bocas sem corpo, sem dono que se encaixam em qualquer lugar

Somos um inverso de Charles

Somos máquinas não somos homens.

Ninguém aqui quer que você fale

O que vale é sempre te dar aquilo que te consome

Durma sua vida, e pague pra que eu viva o meu momento!

É isso…

No final; a beleza da fruta sempre foi meu argumento

Enfim…

A dose é letal; mas o veneno é lento

Não percamos mais tempo e etc, etc, etc,

Sem esquecer o tal

Envenenamento….

Dias sem você

Os dias que te quero, parecem não ouvir

Grito seu nome e o silêncio responde:

– Não escuto!

Uma brincadeira do silêncio que se inspira na não respiração

Vivem sem brisa, sem alento algum, sobrevivem sem sombras, não conhecem amor nem medo

É um jogo lúdico em que se aprende esconder o coração

Sem você, os dias tramam por demais os tais “talvezes e serás”

Ensaiam horas, imaginam outros segundos em outros dias….

Por conta disto, meus dias não começam mas permanecem presos

Sem você, acordo cedo parecendo que o dia terminou

Meus dias nascem ao avesso!

Sem sentido, sem enredo

História que ninguém viu, livro que ninguém leu, conto que ninguém contou

Ora no ponto final de tudo; ora no começo que nunca apareceu

Eles, os dias; veem e não os admiro; só os reconheço

Procuro um espaço entre estar e existir; e me deixo passar

Deslizo entre as horas de zero a vinte e três e cinquenta e nove

Fujo da ponta do ponteiro que me persegue exatamente porque não se move.

Passo a noite vigiando meu sono acordar

Avanço com dificuldade meus minutos sem você

São dias inacabados, construções abandonadas, paredes por metade

Quartos sem sono, cozinhas sem pias, roupas sem dono, salas sem mobílias

Sem você meu dia é um ardil, uma rede, uma porta para a parede

Estrada em volta de si sem jamais chegar

Na agenda, o tempo adia pra próxima página, no próximo dia seu nome

Nesse esconde-esconde de te esconder

Conto os dias do meu calendário

Dias nascidos sem vida….

Trezentos e sessenta e cinco obituários.

Água

Pra que serve a água?

A água é de quem?

Água na escola, em casa, água pra chá do moço ao idoso

E oito copos por dia diz a melodia, que faz bem ao coração

Água pra ferver, água de beber, água pra secar

Água de coco, pra molhar,

Água pra o bico, água pra os bichos

Pra o pato pra o rato pra o cachorro, cavalo, porco, marreco e ganso

Pra plantas e até pra inseto

Água fria e doce de remanso.

Tempestade é água pra chorar

Inunda a mundo do piso da casa até o teto

Engarrafada importada é pra festa de bacana, água na piscina junto com a destilada no final de semana

Água em abundância…

Não é pra todo mundo que tem

De quem é a água?

A água é de quem?

Água pra seca na fresta da terra, água pra descanso ao coração suado do meu povo cansado à espera da água que não tem

Água da chuva no campo de quem planta também é festa

Água do choro molha o canto do olho, e desce no coro do rosto de quem no sol resseca

Água pra quem?

Água barrenta água “saloba” de cacimba

Na mão, o balde da minha aflição que espera no ponto apontar a ponta do caminhão

Água não vem hoje não…

A conta, conta as horas pra acertar a prestação

A vela queima a última gota de óleo e aí vira a escuridão

Mas a água; a água não vem não

Poeira encobre as vista e apaga a pista da esperança da chuva

As árvores desenham barras secas de uma prisão de fogo dentro do olho do meu sertão

Imposto, iptu, pedágio, rescisão tudo aqui chega

Mas a água…

Essa chega não

Paga-se pra nascer e tudo aqui se paga, pra morrer de sede quanto me vai custar?

Vou-me embora.

Minha água vem hoje não

A água que careço de novo errou o endereço e me deixou seco de balde vazio nessa imensidão

– Não mandaram água não viu filha! Coma farinha seca e vá dormir menina!

– Quem é que não mandou painho? De quem é essa água? A água é de quem?

Se eu falasse seu idioma

Se eu falasse em seu idioma eu não diria o que quero, mas o que o coração precisa ouvir

Eu seria mais que um amigo…  seria um abrigo pra quem se perdesse

Poucas palavras em seu idioma e tudo acende, o ambiente se transforma.

Em seu idioma meu coração vai mudando sereno… e assim como a manhã possui a noite completamente até ser dia perfeito em todo céu; eu também me rendo a sua perfeição absoluta

Quando seu som me alcança no meu deserto, na minha solidão, eu descanso

O resultado da equação da sua fala transborda dentro do meu coração sua suave e mansa ortografia

Então; estou em sua sala!

Eu em uma infinita aula da sua língua todos os dias.

Se eu falasse sua língua acordaria completo, letrado, formado, doutorado. Saberia conjugar todo e qualquer verbo a qualquer tempo:

Nascer, sorrir, esperar, abraçar, crer, cantar, viver!

Se eu soubesse dizer com suas palavas o que você sabe dizer o tempo nos esqueceria e sem perceber; jamais passaríamos

Eu importaria para dentro de mim sua gramática perfeita e nunca mais ficaria sem saber escrever o que meu coração ditaria

Se falasse seu idioma, nunca mais seria preso a velocidade nem a dor ou solidão da idade pois versaria com você.

Se eu falasse sua língua eu entenderia a chuva, o sol frio e a solidão da cidade

Se eu aprendesse seu idioma, eu compreenderia a desilusão dos homens nos bares, eu conversaria com os desesperados eu escutaria os que não falam, eu falaria aos que não ouvem

Se eu falasse sua língua eu conseguiria descrever todas as cores os aromas e a felicidade para aqueles que nunca a viram

A tradução de “vida” em sua língua acorda em mim a felicidade adormecida

Seu sotaque tempera as poesias, paralisa o ódio, vence o ciúme, atravessa as avenidas, mares, colore as esquinas, sorri pra os esquecidos, encontra os desesperados escondidos e condena a condenação que os afligem.

Seu idioma deixa abraços nos diários dos sozinhos, paz no coração dos atormentados, começo na história dos terminais, prosseguir pra os que chegaram ao fim

A sua língua escrita não pode ser comprada pois não a como ser vendida

Sua letra tem a perfeição escondida na consciência de quem acredita que a frase dita só pode ser dita se for do coração que nascer

Em sua língua ninguém sentiria falta de ouvir “Amo você” pois em seu idioma, sentir tem que vir antes de dizer.

 

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