Ezequiel Migri

Ezequiel Migri atua na área de Marketing e Propaganda, compondo jingles, vinhetas e construindo ambientes para marcas e produtos em lançamentos e já existentes no mercado. Na hora de escrever, visita vários temas, alcançando um pouco de tudo, pois à noite surge uma notícia ruim, mas de manhã a visão do velho sorrindo para os brotos de feijão rompendo a terra, acelera de novo a vida.

O silêncio das coisas

O vaso quebrou

derramou-se devagar nos dias

Deixou entornar aos poucos o sentimento que você colocou

Partiu-se a peça

Bonito que era; agora refugo de oficina

Aço perdido da matéria-prima que você inventou

Não se sustentava, não se condizia

Não sobreviveu ao calor

Não permanecia além do momento e qualquer distração lhe roubava a vida

Qualquer emoção lhe subtraia a que vinha

Perdeu-se,

Perdia-se

Não sei se por que lento e demorava entender

Não sei se por que rápido e nem viu o que via

Confesso bonito; o que um dia foi lindo

Não foi mal querer…

Solto demais…

Suas pontas ao vento não lhe tornavam capaz de estar

O equilíbrio das coisas se perdia das mãos e caia

Se desfez,

Se desfaz

Sumiu no vão do silêncio dos dias

Sem estalo de beijos, café sem bom dia

Desapareceu entre a inercia das coisas

Bilhetes ao meio, a data esquecida, a flor que não veio

A vaga vazia, a porta trancada, o tilintar das chaves na mesa,

O ”Cheguei; já não chega

Tudo calou-se de vez

– Eu te amo…

Nunca mais ouviu-se na casa

Três palavras trocadas

– Estou indo. Adeus!

Amanhecer em outro lugar

… quero amanhecer em outro lugar

Não amanheço…

Isso parece um filme onde o papel que tenho, não vivo; exerço.

E ao final da fita, o que sera do personagem?

Preso vendo a tela se apagar e todos partirem.

Alguns emocionados, outros achando injusto o final, outros mais que justo, alguns achando que me faltou sofrimento, e outros as lágrimas lamentam minha dor, uns acreditam que perderam tempo, outros querendo continuação. Mas…

Mas ao final todos deixaram a sala.

Todos partem com  suas luzes ascendendo e fico sozinho com as minhas apagando

… me viro do meu jeito.

Sim; saio da sombra, procuro-me atrás do projetor da vida acho-me sem maquiagem no espelho

São outros olhos, outros cabelos.

Mais velho, mas outro.

Ser outro, enquanto o tempo permite, enquanto para mim o tempo existe retificar, ajustar algumas coisas…

Tentar, como puder, do meu  jeito

Assim como quem sabe meu coração em outro peito, ainda que dentro de mim, olhando-me para o que não reconheço

… quero amanhecer em outro lugar

Mas não amanheço…

Querer reinventar-me de forma tal que sem saber que sou eu, tropece em mim

E ser um tão completo estranho para mim, que  não reconheça tropeço e nem tropeçador

… preciso amanhecer em outro lugar

Preciso partir…

Abrir a porta do meu peito e  sair

Caminhar…

Se comigo eu não for, sozinho irei.

Afinal minha identidade aqui, não fala de mim e o número do meu CPF não  justifica quem realmente sou.

Alimento o sonho de um futuro, que ainda que lá eu esteja; jamais estarei

Vejo minhas pegadas espalhadas por uma estrada que nunca pisei

Preciso me desapegar das coisas que eu queria ser e não fui e assim parar de perder esse tempo que me é dado agora com o que sou

Onde está em mim agora o que serei ou o que devo ser?

… quero ir pra casa

Amanhecer onde conheço…

Quero ir pra casa do meu jeito

Do meu jeito…

Sim; o meu jeito!

Desconstruir o sujeito que agora vejo e convivo e acreditar naquele que pode vir a nascer.

Dar luz a mim mesmo

E ainda que seja pelo avesso, me vestir de um novo começo

Aprendi que mesmos os conselhos mais válidos vem com anexo:

“a vida é sua!”

Talvez nisto tenha achado a verdade

Uma passagem, meu passaporte pra casa

Minha formula não é perfeita

Talvez minha despedida não seja a mais perfeita

Mas minha chegada aqui também não foi

Mas o bilhete da sinceridade está em minhas mãos

Estou na plataforma sem mala e sem bagagem e aguardo o apito

Quando embarcar meu trem partira

Vou me acomodar do meu jeito

Sim do meu jeito

Vou dormir pra essa longa viagem.

Não nos falaremos mais por agora.

Vou descansar.

Acordo quando meu trem chegar na estação

Acordarei na minha cidade. Verei o meu sol, tocarei nas portas.

Não se preocupe pequena.

Estarei feliz como voce nunca me viu.

O  importante é que tudo passou e que por maior que tenha sido o grito da dor, o silencio da paz agora me cobriu

Falhei…

Voce sabe e eu sei… mas você sabe também que o que de bom eu queria fazer (se é que algo de bom fiz) e ainda quero; foi e é sincero

Demorou e sofri muito mas, entendi:

“a vida é simples com um segredo”

Entender que cada um responde as coisas dessa vida e reage do seu jeito.

E então, para não sermos devorados por nossa lógica, cálculos, razões;

Para cada erro colocados de um lado da balança existe um contra-pesos para o outro lado, chamado sinceridade, misericórdia e outro perdão.

Descobri ainda outra coisa; que o dono do perdão é o amor.

E quando chegar a hora que toda razão humana e toda pretensa sabedoria se dissipar e em você nada restar; você estará exatamente onde estou.

Abaixara a cabeça e olhando para si percebera que em você não a mais defesa nem argumentos, você entendera além, que na verdade você nunca teve.

Será nesse momento que seus olhos marejados então se esticaram olhando pra o outro lado da balança suplicando por misericórdia então surpresos encontrarão com um par de olhos cheios dela esperando em silêncio  pelos seus.

Aí, e só aí tudo se iluminará.

Você enxergará a luz!

Se dará conta como era tão fácil viver e ser feliz.

Entenderá que quem você precisava que te amasse pra tudo dar certo; sempre, sempre te amou e te amou e te amou e continua te amando.

E o peso do perdão tomará seu lugar na balança a seu favor.

Sempre foi o amor, sempre foi o perdão o real significado da vida

E todos, todos sem excessão precisaremos dele em um momento do outro lado da balança

Digo isso agora porque meus olhos já marejados se esticam para o outro lado da balança, esperando…

Perdoe se não pude fazer mais…

Mas confesso; fiz o que podia, o que minha força dava, o que eu conseguia. Sei que não bastou e sei que errei. Sim falhei…

Mas foi  assim…

I did it my way.

Envenenamento

Poeira, óleo diesel, fumaça,

Dependência, novo jeito, nova moda, novo estilo, nova droga

Via net, via rádio, bebendo seu pensamento por canudo pela tela da televisão

Curto sua curta existência curta, em minha transmissão!

O vício de seguir é a sedução do momento

Sente-se e não se preocupe com nada;

Minha engenharia aperfeiçoara seu

Envenenamento….

A sua tristeza faz meu ibope

O meu truque é por seu choro na sala pra que o telespectador não troque

Conto suas lágrimas pela quantidade de aparelhos ligados ao meu show

Então chore copioso que com todo carinho e amor, vendo seu sentimento pra o meu patrocinador

Não posso resolver tudo agora..

Deixo pro próximo capítulo pra poder aumentar o preço prometendo pra o próximo episódio um público esmagador

Isso não termina…

Seu choro tem que encher minha piscina

Me enriquecer com sua pobreza parece ser mesmo sua sina

Minha foto com autógrafo no seu porta-documento

Querer ser eu; é o seu envenenamento.

Vinte quatro horas online estou a sua disposição

Você manda

Você tem o controle! É só apertar o botão.

Esse é o slogan do grande truque da sua submissão

Não levante fique sentada,

Juntos para sempre, fast-food eternamente

Sou seu amigo e eu não ligo pra sua condição, saúde nem silhueta

Não fique zangada pensando na altura da sua pressão

Feche a porta, a janela

Muita luz atrapalha visão

Você me enxerga melhor no escuro

Onde abro essa porta pra escuridão

Aumente quanto quiser seu consumo

Sacie essa sua fome enquanto isso te consome

Me desligar? Não! Nem por um momento

Enquanto você dorme eu fico hibernando em sua mente o meu conhecimento

Seu dinheiro mantém a nossa relação

Comprei o direito de ir direto na veia alimentando seu coração

Envenenamento…

A nata da situação, o truque do envolvimento o laço da submissão

Arrasto o caos da velocidade em cadeia,

Invento uma verdade na minha mentira e te prendo nessa teia

Tenho que te deixar

Se quiser; pode chorar!

Engarrafo o choro pra vender pra outro show na Europa onde irei morar

Lá seu choro vira chocolate da melhor qualidade, vinho da melhor safra, dinheiro de melhor valor

Não fique assim tão surpresa, decepcionada, quando desço do meu jaguar e subo a bordo da minha nave espetacular

Você sabia que eu ganhava, você me seguiu pelo blog twitter, instagram

Você me deu ibope

Me acompanhou quando eu comprava

Eu pensei que fosse isso que você queria!

Eu vivendo o sonho que você sonhava

Já que você não podia; me financiava.

Eu sou Top!

Não vamos brigar agora né?

Pense assim, você agora  faz parte de mim

Cada vez que pisar em cima de um parafuso do meu jato particular com meu Salvatore Ferragamo; vou lembrar seu nome

Dúvida? Quer ver? Vou pisar e vou dizer. Agora; lá vai:

– FÃ!

Minha saudade é tanta, que já fiz camisetas com meu rosto numa estampa

pra você usar e se despedir de mim no aeroporto,

Mal posso esperar…

Meu empresário gravando, você gritando até as tampas, vendo meu avião decolar

Eu no conforto voando pra o firmamento e você no chão acenando aquele lencinho sujo de bolso e de batom

É um momento tão singelo, tão sincero

Uma troca de energia, uma alegria, um momento meu e seu

Você me dando fama e eu te dando adeus

Mas…

É meio patético confesso!

Nem te conheço! E você soluçando, gritando comigo no ar!

Você é falsa! Não me ama nada. Me deu tudo isso e tá ai pedindo pra eu não partir?

Mas eu entendo….

Eu to mesmo mais pra ir.

Não estou nem um pouco querendo ficar

Não se preocupem…

Logo outro astro vem pra te iludir em meu lugar

C’est La Vie.

A indústria não pode parar.

Somos um universo sem formas de caras e rostos

Bocas sem corpo, sem dono que se encaixam em qualquer lugar

Somos um inverso de Charles

Somos máquinas não somos homens.

Ninguém aqui quer que você fale

O que vale é sempre te dar aquilo que te consome

Durma sua vida, e pague pra que eu viva o meu momento!

É isso…

No final; a beleza da fruta sempre foi meu argumento

Enfim…

A dose é letal; mas o veneno é lento

Não percamos mais tempo e etc, etc, etc,

Sem esquecer o tal

Envenenamento….

Dias sem você

Os dias que te quero, parecem não ouvir

Grito seu nome e o silêncio responde:

– Não escuto!

Uma brincadeira do silêncio que se inspira na não respiração

Vivem sem brisa, sem alento algum, sobrevivem sem sombras, não conhecem amor nem medo

É um jogo lúdico em que se aprende esconder o coração

Sem você, os dias tramam por demais os tais “talvezes e serás”

Ensaiam horas, imaginam outros segundos em outros dias….

Por conta disto, meus dias não começam mas permanecem presos

Sem você, acordo cedo parecendo que o dia terminou

Meus dias nascem ao avesso!

Sem sentido, sem enredo

História que ninguém viu, livro que ninguém leu, conto que ninguém contou

Ora no ponto final de tudo; ora no começo que nunca apareceu

Eles, os dias; veem e não os admiro; só os reconheço

Procuro um espaço entre estar e existir; e me deixo passar

Deslizo entre as horas de zero a vinte e três e cinquenta e nove

Fujo da ponta do ponteiro que me persegue exatamente porque não se move.

Passo a noite vigiando meu sono acordar

Avanço com dificuldade meus minutos sem você

São dias inacabados, construções abandonadas, paredes por metade

Quartos sem sono, cozinhas sem pias, roupas sem dono, salas sem mobílias

Sem você meu dia é um ardil, uma rede, uma porta para a parede

Estrada em volta de si sem jamais chegar

Na agenda, o tempo adia pra próxima página, no próximo dia seu nome

Nesse esconde-esconde de te esconder

Conto os dias do meu calendário

Dias nascidos sem vida….

Trezentos e sessenta e cinco obituários.

Água

Pra que serve a água?

A água é de quem?

Água na escola, em casa, água pra chá do moço ao idoso

E oito copos por dia diz a melodia, que faz bem ao coração

Água pra ferver, água de beber, água pra secar

Água de coco, pra molhar,

Água pra o bico, água pra os bichos

Pra o pato pra o rato pra o cachorro, cavalo, porco, marreco e ganso

Pra plantas e até pra inseto

Água fria e doce de remanso.

Tempestade é água pra chorar

Inunda a mundo do piso da casa até o teto

Engarrafada importada é pra festa de bacana, água na piscina junto com a destilada no final de semana

Água em abundância…

Não é pra todo mundo que tem

De quem é a água?

A água é de quem?

Água pra seca na fresta da terra, água pra descanso ao coração suado do meu povo cansado à espera da água que não tem

Água da chuva no campo de quem planta também é festa

Água do choro molha o canto do olho, e desce no coro do rosto de quem no sol resseca

Água pra quem?

Água barrenta água “saloba” de cacimba

Na mão, o balde da minha aflição que espera no ponto apontar a ponta do caminhão

Água não vem hoje não…

A conta, conta as horas pra acertar a prestação

A vela queima a última gota de óleo e aí vira a escuridão

Mas a água; a água não vem não

Poeira encobre as vista e apaga a pista da esperança da chuva

As árvores desenham barras secas de uma prisão de fogo dentro do olho do meu sertão

Imposto, iptu, pedágio, rescisão tudo aqui chega

Mas a água…

Essa chega não

Paga-se pra nascer e tudo aqui se paga, pra morrer de sede quanto me vai custar?

Vou-me embora.

Minha água vem hoje não

A água que careço de novo errou o endereço e me deixou seco de balde vazio nessa imensidão

– Não mandaram água não viu filha! Coma farinha seca e vá dormir menina!

– Quem é que não mandou painho? De quem é essa água? A água é de quem?

Se eu falasse seu idioma

Se eu falasse em seu idioma eu não diria o que quero, mas o que o coração precisa ouvir

Eu seria mais que um amigo…  seria um abrigo pra quem se perdesse

Poucas palavras em seu idioma e tudo acende, o ambiente se transforma.

Em seu idioma meu coração vai mudando sereno… e assim como a manhã possui a noite completamente até ser dia perfeito em todo céu; eu também me rendo a sua perfeição absoluta

Quando seu som me alcança no meu deserto, na minha solidão, eu descanso

O resultado da equação da sua fala transborda dentro do meu coração sua suave e mansa ortografia

Então; estou em sua sala!

Eu em uma infinita aula da sua língua todos os dias.

Se eu falasse sua língua acordaria completo, letrado, formado, doutorado. Saberia conjugar todo e qualquer verbo a qualquer tempo:

Nascer, sorrir, esperar, abraçar, crer, cantar, viver!

Se eu soubesse dizer com suas palavas o que você sabe dizer o tempo nos esqueceria e sem perceber; jamais passaríamos

Eu importaria para dentro de mim sua gramática perfeita e nunca mais ficaria sem saber escrever o que meu coração ditaria

Se falasse seu idioma, nunca mais seria preso a velocidade nem a dor ou solidão da idade pois versaria com você.

Se eu falasse sua língua eu entenderia a chuva, o sol frio e a solidão da cidade

Se eu aprendesse seu idioma, eu compreenderia a desilusão dos homens nos bares, eu conversaria com os desesperados eu escutaria os que não falam, eu falaria aos que não ouvem

Se eu falasse sua língua eu conseguiria descrever todas as cores os aromas e a felicidade para aqueles que nunca a viram

A tradução de “vida” em sua língua acorda em mim a felicidade adormecida

Seu sotaque tempera as poesias, paralisa o ódio, vence o ciúme, atravessa as avenidas, mares, colore as esquinas, sorri pra os esquecidos, encontra os desesperados escondidos e condena a condenação que os afligem.

Seu idioma deixa abraços nos diários dos sozinhos, paz no coração dos atormentados, começo na história dos terminais, prosseguir pra os que chegaram ao fim

A sua língua escrita não pode ser comprada pois não a como ser vendida

Sua letra tem a perfeição escondida na consciência de quem acredita que a frase dita só pode ser dita se for do coração que nascer

Em sua língua ninguém sentiria falta de ouvir “Amo você” pois em seu idioma, sentir tem que vir antes de dizer.

 

Às vezes

Às vezes são sedutoras…

Quando percebemos, passou e aconteceu

Persistentes, às vezes insistem no que não deu pé

Às vezes separados ou misturados

Às vezes é você

Às vezes sou eu

Às vezes se articulam aleatórias, sem importância…

Às vezes ácidas, às vezes inflamatórias, detentoras da razão

Às vezes passam perto ignorando aviso

Às vezes sem pé nem cabeça, desnorteadas pela bússola da ilusão, atropelam no coração alegrias e dores

Mas às vezes sabem inventar flores de papéis, esticar por anos aquele segundo

Às vezes são azuis como o que você me deu

Às vezes pratas como os meus

Esquecem, disfarçam, se entristecem, se arrependem lamentam

Às vezes choram e admitem que doeu

Às vezes nós

Às vezes você

Às vezes sou só eu

Mas os avezes, avezes são: inventores de jardins na cidade fria, alegrias autênticas de riso estalado na rua

Mimicas, se multiplicando ao lado, a frente, atrás de você, … até me ver

Até você chorar de rir…

Até você querer ir

Às vezes só até parar e olhar pra mim…

Às vezes…

Às vezes também é o que é: é quem sabe, é talvez, é não ou é sim

Sua presença incerta, insegura, provisória é que me faz seccionado, indevido, precatório,

Às vezes meu amor, é não combinado, é não pronto, não acabado

Às vezes fica soa por acaso

E afinal o que é o às vezes?

Onde mora?

Entre o quase certo e o pouco provável?

O às vezes apaga, a vida é acesa

Às vezes é meio, amor é inteiro

Às vezes é dúvida e eu tenho certeza

Às vezes é esquecimento, sentimento é memória

Às vezes é lenda, amor é história

Nós soltos por dentro, os dois presos por fora

Os nós e a linha

Às vezes você

Às vezes eu

Você às vezes meio que meio minha

Eu às vezes meio que meio seu

O gosto

Gosto se repete na boca assim coma a boca repete o gosto no tempo.

E o que penso que esqueço, a lembrança gustativa do sentimento com seu perpétuo movimento me invade de novo e me leva pra  você

E tudo que me faz bem; vem!

Aí então pra manhã embrulhada no jornal do dia a notícia somos nós dois

Gosto de manhãs!

Mas às vezes a pressa que é tempero inevitável no meu dia, quase despercebo seu gosto, e me irrito na velocidade da vida presa na lentidão do trânsito, no recheio do metro, na burocracia da justiça, na precariedade da minha saúde esquecida na fumaça desnutrindo-me no ronco do motor

Diesel, buzina, álcool, gasolina…

Respiro olho pra cima, apoio meu queixo na mão e lembro você como num truque

Tenho sensação de que perco fatias doces da vida pelas avenidas dessa cidade cinza

Isto me assusta!

A corrida pelo supérfluo é a receita perfeita da automação

Tenho medo.

Fome, desnutrição, pó, anabolizante, vício, inalação…

E se te perco pra toda essa confusão?

E se te esqueço pegando qualquer vírus de dissolução de sentimento?

Ou perco seu endereço em meio a tanta placa e cimento?

E imagina, ninguém ainda sequer inventou o Museu do Esquecimento pra guardar nossa memória

O que acabou de mudar já não está mais no mesmo lugar!

Vírus, vermes, germes roendo o osso, o bolso, no cérebro do cerne querendo roer nossa intenção

O mundo solto no trânsito dentro da nossa vida sem placas, sinais ou sinalização verde, vermelho ou qualquer atenção

Somos bilhões de variáveis em meio essa infinita equação

Milhares de estradas da janela do avião

Mas quase sem perceber meu caminho me leva pra você

Que gosto tem você?

O sabor da simplicidade que chega sem a gente perceber

O aroma transparente da veracidade

O tempero do equilíbrio

Tem gosto de que ficou no fogo o tempo certo

O sabor  se misturou de um  jeito que não é mais você que tem gosto, mas é o gosto que tem você

Sabor da água pra sede

Foi pra mim o sabor que você escolheu ter

Precisa-se de homens-bombas

Precisamos de homens-bombas com urgência.

Não precisa experiência, só coragem

Sem meias palavras, sem timidez

Todo municiado com os olhos carregados de misericórdia

Até os dentes de esperança, mãos cheias de perdão

Tem  que olhar no fundo dos olhos de cada um antes de se explodir e então… deixar a lágrima da piedade escapar e sorrir

que tenha consigo bombas pra tudo que é cor e tamanho

Bomba pra explodir o ódio entre os homens

Bombas pra explodir tristeza

Bomba para efeito apaixonante

Bomba pra explodir depressão

Bomba de explodir fome, explodir solidão

Bomba de descanso pra o fim do dia

Bomba de alegria pra explodir a dor da notícia de Franças e Turquias

Precisamos de homens que nos junte numa grande explosão mundial de humanidade pra refazermos os despedaçados

pra poder haver amanhã e fragmentar a bomba do “nunca mais”

Homens-bombas que nos junte e não nos despedace

Homens que não se achem superiores; mais iguais

precisamos de homens pra explodir ideias e ideais

Homens-bombas que nas filas, nos bancos, nos shoppings, nas casas, nas escolas e pelas esquinas das ruas não temam o horror

e noite ou dia sem aviso explode seu coração de amor

Você me paga

Você me paga pra eu te mandar chuva pra apagar o fogo que você acendeu pra me devorar

Luva de pelica para mão com que você me bateu

Dar ar pra vida que você quis roubar

Deixar de troco um abraço no meio da intriga que você me deu

Dose de verdade para seu ego cego ciumento

Te tratar a sorriso para te curar essa inveja

se você me pagar…

 

Você me paga…

Eu compro caminhão de bandeiras brancas pra sarar a revolta da terra em que você pisou

Me pague e recupere esse seu tempo perdido que passou me perseguindo

Se esforçando, disfarçado entre os amigos

Me paga e  “faça-se” um favor: perca-se de mim!

Talvez esqueça assim meu nome e nem saiba mais quem sou

Eu já vi…

Seu sangue falsificado de doador

Sua boca de ovelha tem dentes de lobo

Por favor…

Esconda em outro lugar o seu ódio pelo meu amor!

Perca meu cheiro, ignore minha direção, não me perceba

Não percebe…?

Não carrego o que você quer me dar!

Eu navego veleiro

Você adrenalina, tempestade, furacão

Bola e goleiro

Bom mesmo é ninguém se encontrar

Eu salivo manhãs calmas, silencio e até certa dose de solidão

Você; turbulência, estrelismo, disputas, calúnia e difamação

Quero cicatrizar feridas, você abri-las

Acredito em par, você em ímpar

Te incomodo em gênero, número, tempo e espaço

Não andamos juntos…

Eu água, você pedra dura

Sou leite no copo da sua mente bebida: eu te azedo

E sua língua envenena minha cura

Você ama o frio estalo da ruptura e eu sofro o calor lento da união

Não;…

Não sou parede pra sua solitária moldura

Você não é a rima no final da minha canção

Você me paga

Compro uma casa na vila do esquecimento

Vou morar lá!

Até de mim esqueço pra ter certeza de nunca mais te lembrar

Você me paga,

Você nem imagina…

O troco que tenho que te dar é tanto

Que eu que vou me endividar

Pra você me pagar

Pra pagar a revolta da terra em que você pisou

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