Jaíne Miloni

Jaíne Miloni, estudante de pedagogia. N(ativa) abordará assuntos do nosso cotidiano, dando bastante espaço para assuntos relacionados às mulheres.

Ainda sobre o preconceito

É muito difícil para mim falar sobre isso, pelo simples fato de que eu não consigo imaginar o que se passa na cabeça de uma pessoa para ter ódio de outra por causa da cor da pele dela. Sério, como pode algo tão absurdo assim possa existir e, pior, com tanta frequência? O mais inacreditável de tudo: em um país miscigenado e, segundo pesquisas, de maioria negra, onde o sangue de negros passa pelas veias de muitos de nós.
A maioria sofre forte preconceito da minoria, que por um acaso veio de descendência europeia ou italiana e se acha superior. Eu não sou negra, logo não posso falar com a intensidade correta sobre a gravidade desse crime; pois nunca senti na minha pele o que é ser um alvo de racistas, entretanto, eu já passei do meu limite de revolta, já me coloquei diversas vezes no lugar dos negros, e foi uma sensação horrível, não consigo imaginar uma vida assim, cheia de ofensas e piadas que não têm graça; toda vez que entro em alguma rede social, tem lá noticiando que pessoa X e Y foram alvos de racismo. O que mais me choca é que dá pra perceber a raiva dos agressores seja ao falar ou a digitar a agressão, como a cor da pele de um ser humano pode influenciar tanto, que tipo de pessoas nós somos?!
“Minha opinião, mas vc é negra, devia estar com os outros negros (…)”. É triste esse tipo de comentário por dois fatores:
Primeiro, a discriminação; Segundo, a pobreza de espírito dessa pessoa. Será que ela é tão infeliz assim ao ponto de ir em uma rede social ofender uma pessoa a troco de nada, por causa da cor da pele dela, só pra se sentir menos vazia? Por que essas pessoas guardam tanto ódio por outro ser humano, sem absolutamente motivo nenhum?
Em busca por declarações encontrei uma da cantora Karol Conka, que relata ter tentado descolorir sua pele com água sanitária quando criança, além de pedir ao papai noel para ser branca. Vocês conseguem enxergar o mal que somos capazes de fazer, o quão nocivo nós somos?!
Preconceito mata, traumatiza, intimida. E ainda há pessoas que afirmam que não há preconceito no Brasil, que o jeito de acabar com o preconceito é deixar de falar sobre o mesmo.
Não! Não podemos e não devemos nos calar diante de tais acontecimentos, o preconceito racial existe, pessoas morrem, pessoas se calam, pessoas nesse momento estão se sentindo menores do que outras, e com toda certeza devemos falar sim, em casa, nas escolas, nos debates da faculdade, nas ruas e com os amigos, não se cale diante de uma situação!
Vocês devem se lembrar que, quando a escravidão foi abolida, muitos negros continuaram a trabalhar para seus antigos patrões (que eram considerados donos dos escravos) porque eles não eram aceitos de forma alguma pela sociedade. Eles não conseguiam andar nas ruas sem sofrerem algum tipo de agressão e não tinham meios para viver, pois ninguém queria empregá-los ou dar acesso a educação. A primeira criança negra a frequentar uma escola que, antes, era de brancos, teve que ir escoltada, assistiu aula sozinha e apenas uma professora se dispôs a ensiná-la. Mas isso, caros leitores, foi há muitos anos. Comparando com esses exemplos, pode-se dizer que a condição da população negra melhorou no país. Mas não o necessário! Ao ver atitudes como a citada acima, vê-se que ainda há muito trabalho a ser feito! Por exemplo, a maioria da população pobre brasileira também é negra. Seria coincidência ou ainda carregamos traços daquela sociedade conservadora e excludente? Convido-os a refletir sobre isso.
Compre a briga sim, não fale coisas como “a coisa ficou preta”, “inveja branca” e tantas outras expressões que reforçam aquele passado extremamente preconceituoso. Também estou falando sobre você não ficar calado ao ver alguém ser atacado na sua frente. Você tem argumentos, use-os! Não podemos deixar que esse tipo de atitude continue sendo disseminada por aí. A mudança começa em nós.

O que vou deixar para trás

Vou deixar a vergonha, vergonha de me expressar, de fazer o que tenho vontade, de falar sobre o que eu gosto, sem ter medo do que as pessoas vão pensar, vou deixar a vergonha de mostrar meus sentimentos.

Vou deixar meu orgulho, por me cegar em tantos momentos, e me afastar das pessoas que amei e não tive sequer coragem de falar a elas.

Vou deixar meu egoísmo, por querer tudo para mim e esquecer-me do próximo em muitas vezes. Por achar que preciso mais do que outra pessoa.

Vou deixar o apego, o desapego é necessário para seguir em frente, e saber quando devemos deixar as pessoas seguirem outro caminho para serem felizes, para sabermos que todos nos precisamos partir ao menos algumas vezes para sabermos qual caminho seguir, e se voltar e realmente o melhor para si, a vida é uma série de momentos…

Vou deixar minha solidão, solidão que precisei para poder encontrar a mim mesma, solidão que tanto me acompanhou, mergulhei nela em tantos momentos que me sentia perdida em mim, momentos em que não sabia minha identidade e o que eu queria.

Vou deixar minha tristeza, por me afasta das coisas alegres da vida, que deixa meu coração confuso, minha tristeza que me afoga e me faz achar que nada e ninguém realmente conhecem o que é ser feliz, vou deixar minha tristeza por me privar do sentimento mais puro desse mundo, o amor.

Vou deixar todos os meus medos, que só me atrapalham e me fazem perder oportunidades, vou deixa-los antes que me façam uma refém de mim mesma.

Vou deixar à preguiça, preguiça de sair de casa, de pegar trânsito, a preguiça de ver, de abrir meus olhos, ouvidos e boca para o mundo.

Vou deixar a cobiça, a cobiça de querer sempre mais, e nem sempre o que queremos vai nos satisfazer, e nem e o que necessitamos, quero o necessário para mim.

Vou deixar a desconfiança, a desconfiança não leva a caminho nenhum e só te traz perseguição, angustia e solidão, só faz mal a mim mesma.

Vou deixar a falta de tempo que é desculpa de todas as pessoas para não se verem, e encontrar as pessoas que me fazem bem e me fazem acreditar na vida, a falta de tempo para mim mesma, para a minha família, para os prazeres da vida.

Vou descartar tudo o que não me acrescenta.

Retire a viseira de seus olhos

Ridículo é esse preconceito, preconceito sim é falta de respeito. Ridículo é você não poder ir para uma balada com os amigos sem ser condenada como a piriguete, ridículo é não poder gostar de ficar em casa sem ser taxado como o careta. Ridículo é não poder abraçar forte uma amiga em local público sem ser condenada como homossexual, ridículo é não poder amar uma pessoa do mesmo sexo sem ser taxado como “uma falta de vergonha na cara” ou que é falta de uns tapas. Ridículo é olhar torto para alguém tatuado, com a cor do cabelo diferente do seu, e ainda tacha-lo como um “ Zé ninguém”.

Ridículo é uma mulher não poder entender de futebol e vídeo game, e um homem de cabelo e maquiagem. Ridículo é criticarem um homem que aprecia a dança. Ridículo é condenar uma jovem por ter tido filho na adolescência. Ridículo é receber olhares críticos por um negro estar com uma branca, ou vice-versa. Ridículo é achar que um rico tem mais valores e chances na vida que um pobre, ridículo é achar que roupa define caráter de alguém, ridículo é achar que ter dinheiro significa ter tudo, ridículo é achar que algum pré-conceito seu vai definir caráter de alguma pessoa.

Ridículo são essas pessoas, ridículo é quem perde tempo julgando ao invés de incentivar. Ridículo é criar conceitos para tudo, ridículo é achar que porque seu filho com 17 anos não escolheu o quer ser na vida ele não vai ser ninguém. Parem de julgar uns aos outros, parem com essa grande babaquice de achar que sabem de tudo! Ridículo é dizer que não existe preconceito. Ridículo é vendar seus olhos para tudo o que está acontecendo ao seu redor!

Respeitem uns aos outros, todos merecem respeito independentemente se é homem, mulher, criança, idoso ou animal, todos têm uma vida, e por terem vida merecem respeito.

Julgue menos, ame mais!

A culpa é de quem?!

Hoje eu fui violentada, senti uma dor que eu não imaginava ser capaz de sentir. Foi um dia difícil, tive meus direitos desrespeitados, minha imagem foi exposta. Ouvi por aí que a culpa ainda poderia ser minha, pelas roupas que uso, que se eu estivesse em casa isso poderia não ter acontecido, que se eu me comportasse “direito” poderia ter evitado. Vi pessoas rindo, fazendo piadas do que aconteceu. Senti falta de compaixão, falta de amor, e falta de respeito. Me senti desamparada, fui julgada e condenada por uma ação que a culpada não sou eu, como pode a vítima ser culpada? Hoje eu sangrei e vi outras mulheres sangrando por mim. Hoje eu adquiri marcas que não vão ser apagadas com um simples excluir, elas ficaram cicatrizadas. Eu disse não, e não fui ouvida, tentaram me calar é outras mulheres gritaram por mim!
Hoje não foi comigo, mas foi com a Beatriz. Hoje Beatriz, e amanhã? Pode ser qualquer uma de nós.

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