Maiara Domingues

Encontrou no espiritismo uma nova filosofia de vida, de amor, paz, serenidade e entrega ao próximo. Ela escreve reflexões para o dia a dia.

Agir ou reagir?

Vez ou outra ela nos alcança. É a violência que existe nas almas e se exterioriza em palavras e ações grosseiras.

Por vezes, a impressão que temos é que a grande maioria dos seres anda armada contra seu semelhante.

São funcionários em estabelecimentos comerciais ou serviços públicos que parecem abarrotados de tarefas e, por isso mesmo, estressados.

Basta que peçamos algo a mais e pronto: lá vem uma resposta grosseira, que soa como um desabafo.

Às vezes, o que diz o funcionário não é verdadeiramente grosseiro, mas o tom de voz ou a inflexão que imprime aos seus vocábulos, agride.

São clientes que aguardam o atendimento nota dez e reclamam por não ser como desejavam.

Assim, em consultórios, é bastante comum ouvirmos reclamações acerca do atraso do profissional.

O telefone tem se tornado uma arma violenta, na boca de muitos. Através dele, as criaturas se permitem gritar, esbravejar e dizer palavras que, normalmente, face a face, corariam de vergonha em utilizar.

Pelas mídias sociais, a violência se mostra, diariamente, nos comentários amargos, críticas terríveis, como se todos tivéssemos sido eleitos juízes do comportamento alheio.

Por tudo isso é deveras importante que principiemos a nos exercitar para agir nas mais intrincadas situações, a fim de evitar cedermos à onda de agressividade e má educação, que parece levar de roldão a quase todos.

Usar expressões mágicas como: Por favor, Seria possível, Poderia me fazer a gentileza, Com licença, funcionam muito bem.

Contudo, nos prepararmos para desarmar quem agride, é imprescindível, mesmo para evitar sermos envolvidos em situações constrangedoras.

Ante um funcionário que reclama do que lhe é solicitado, podemos demonstrar solidariedade, com frases como: Você deve estar tendo um dia difícil! ou Este trabalho é desgastante, não é mesmo?

Perante o cliente aborrecido pela mercadoria não recebida, no prazo estipulado, ou pelo horário não respeitado, nos mostrarmos dispostos a ajudar, verificar as razões da demora e informar com paciência.

Temos, de um modo geral, medo de pedir desculpas, pois acreditamos que isso significa estar assumindo um erro, que nem sempre é nosso.

Entretanto, desculpar-se significa tomar ciência da frustração do cliente e atender a sua reclamação.

Em todo momento, buscar soluções é melhor do que perdermos tempo com discussões e resolve os problemas, antes que mais se agravem.

Promover a paz nem sempre significa sentar-se à mesa internacional das negociações para decidir sobre a extinção de minas terrestres ou de armas nucleares.

Mas, com certeza, quer dizer desarmar-se, amar-se e amar o próximo, propondo e dispondo-se à calma, à sensatez e ao entendimento.

Um sábio, andando pelas terras do Oriente, cantou versos de paz, dizendo Bem-aventurados os mansos e pacíficos porque serão chamados filhos de Deus.

Isso nos estimula a sermos amáveis, gentis com o próximo e promovermos a paz. Porque ser pacífico é ser amigo da paz.

Dessa forma, realizemos o imprescindível investimento em prol da nossa paz interior, que se estenderá ao nosso redor, beneficiando quem conosco conviva, trabalhe ou simplesmente cruze nossos caminhos.

 

Redação do Momento Espírita

Os primeiros lugares

Contou-nos uma pessoa, que foi trabalhar algum tempo num país europeu e que várias vezes identificou marcantes diferenças entre as atitudes deles e as nossas.

A forma de resolver problemas, a maneira de conduzir-se perante determinadas dificuldades no ambiente de trabalho etc.

Nas suas observações, percebeu que tinham alguns comportamentos muito próprios e incomuns entre nós.

Em verdade, ela jamais imaginara que com eles aprenderia uma extraordinária lição. Algo que a faria admirá-los e seguir-lhes o exemplo.

No seu primeiro dia de trabalho, um colega da empresa a veio apanhar em casa e eles seguiram, juntos, no carro dele.

Ao chegarem, ele entrou no estacionamento, uma área ampla para mais de duzentos carros.

Como haviam chegado cedo, poucos veículos estavam estacionados, entretanto, o rapaz deixou o seu carro parado logo na entrada, próximo ao portão.

Assim, ambos tiveram que caminhar um trecho considerável, até chegarem efetivamente à porta da empresa.

No segundo dia, o fato se repetiu. Eles tornaram a chegar cedo e, novamente, o carro foi deixado próximo da entrada do estacionamento.

Outra vez tiveram que atravessar todo o extenso pátio até chegarem ao escritório.

No terceiro dia, bastante intrigada, ela não se conteve e perguntou ao colega:

Por que você deixa o carro tão distante, quando há tantas vagas disponíveis? Por que não escolhe uma vaga mais próxima do acesso ao nosso local de trabalho?

A resposta foi franca e rápida:

O motivo é muito simples. Nós chegamos cedo e temos tempo para andar, sem perigo de nos atrasarmos. Alguns dos nossos colegas chegam quase em cima da hora e se tiverem que andar um trecho longo, correm o risco de se atrasarem.

Assim, é bom que encontrem vagas bem mais próximas, ganhando tempo.

O gesto pode ser qualificado de companheirismo, coleguismo. Não importa. O que tem verdadeira importância é a consciência de colaboração.

Ela recordou que, algumas vezes, em estacionamentos, no Brasil, vira vagas para deficientes sendo utilizadas por pessoas não deficientes.

Só por serem mais próximas, ou mais cômodas.

Recordou dos bancos reservados a idosos, gestantes em nossos transportes coletivos e utilizados por jovens e crianças, sem preocupação alguma.

Lembrou de poltronas de teatros e outros locais de espetáculos tomadas quase de assalto, pelos mais ágeis, em detrimento de pessoas com certas dificuldades de locomoção.

Pensou em tantas coisas. Reflexionou. Ponderou…

E nós? Como agimos em nossas andanças pelas vias do mundo? Somos dos que buscamos sempre os lugares mais privilegiados, sem pensar nos outros?

Alguma vez pensamos em nos acomodar nas cadeiras do centro do salão, quando vamos a uma conferência, pensando que os que chegarem em cima da hora, ocuparão as pontas, com maior facilidade?

Pensamos, em alguma oportunidade, em ceder a nossa vez no caixa do supermercado a uma mãe com criança ou alguém que expresse a sua necessidade de sair com mais rapidez?

Pensemos nisso. Mesmo porque, há pouco mais de dois milênios, um rei que se fez carpinteiro, ensinou sabiamente:

Quando fordes convidados a um banquete, não vos assenteis nos primeiros lugares…

O ensino vale para cada dia e situação das nossas vidas.

 

Redação do Momento Espírita

O poder da determinação

O garoto era encarregado de chegar mais cedo, todos os dias, e acender o antiquado fogão, a fim de aquecer a sala, antes da chegada da professora e dos colegas.

Era uma escola rural e todos os dias, o menino atendia à sua obrigação.

Certa manhã, quando chegaram a professora e os meninos, a escola estava em chamas. O garoto foi retirado inconsciente do prédio. Mais morto do que vivo.

De sua cama, ele pôde ouvir o médico dizendo para sua mãe que ele não tinha chances de viver. Morrer seria uma bênção para ele, pois o fogo tinha arrasado toda a parte inferior do seu corpo.

Mas o corajoso menino decidiu que iria viver. Tanto lutou que sobreviveu.

Então, outra vez, ele ouviu o mesmo médico dizendo para sua mãe que ele estava condenado a viver como um inválido. Seus membros inferiores estavam inutilizados.

De novo, o garoto tomou uma decisão: ele voltaria a andar, não importa o que custasse.
Infelizmente, da cintura para baixo, ele não tinha controle motor. As suas pernas finas estavam ali penduradas, inúteis.

Quando recebeu alta do hospital, sua mãe o levou para casa. Todos os dias, ela massageava as suas pernas. Mas ele não sentia nada.

Nem sensação, nem controle, nada. Contudo, não desistia. Ele queria voltar a andar.

Certo dia, a mãe o colocou na cadeira de rodas, e o levou para o quintal, para tomar sol.
Ele ficou ali, olhando a cerca, a poucos metros. Então, se jogou no chão e se arrastou pela grama, até a cerca.

Com um esforço imenso, agarrou-se a ela, se levantou e começou a se arrastar, estaca após estaca.

Estava decidido a andar. Fez isso em todos os outros dias, até ter aplainado um caminho, em volta do quintal, junto à cerca.

Ele queria andar. E andaria. Ele daria vida outra vez àquelas pernas.

Por fim, depois de massagens diárias e muita determinação, ele conseguiu a habilidade de ficar de pé, dar uns passos, embora vacilantes.

Finalmente, caminhar. Ele começou andando até a escola. Logo, decidiu que chegaria correndo. Pelo simples prazer de correr.

Muitos anos depois, na faculdade, ele entrou para a equipe de atletismo.

Mais tarde, esse jovem que ninguém esperava que sobrevivesse, que diziam jamais voltaria a andar, muito menos correr, bateu o recorde mundial de velocidade em uma corrida de uma milha, no Madison Square Garden. Seu nome: Doutor Glenn Cunningham.

Determinação tem a ver com vontade. E vontade acionada é certeza de objetivo alcançado.
Para isso, no entanto, se fazem necessários alguns fatores como o real desejo de querer, a persistência na execução do programa que seja estabelecido e o objetivo a alcançar.

Dessa forma, se temos um objetivo nobre, persigamo-lo sem cansaço, guardando a certeza de que haveremos de atingi-lo, em algum momento.

Importante: esqueçamos frases como não posso. Ou não tenho grande força de vontade quanto gostaria.

Trata-se de querer, trabalhar pela conquista, perseverando até o fim.

Redação do Momento Espírita

Renascendo das cinzas

O termo resiliência se deslocou do mundo da física para o comportamental. Em princípio, traduz a capacidade de um corpo se deformar por conta de agentes externos e, em seguida, se recuperar.

No campo comportamental, o papel da resiliência corresponde à capacidade humana de enfrentar, vencer e sair fortalecido de situações adversas.

Ser resiliente é um processo que se ativa dentro de nós de acordo com as necessidades impostas pelas dificuldades da vida.

Todos dispomos dessa ferramenta e ela se fortalece através das características pessoais de cada um.

Tais características determinam nossa maneira de enxergarmos uma situação penosa, bem como a forma pela qual reagimos diante dela.

Uma jovem que se tornou viúva na reta final de sua gravidez, escreveu:

Um homem tem uma morte súbita dois meses antes do nascimento do seu único filho. Assim nasce esse blog, tentando entender e explicar dois sentimentos opostos e simultâneos vividos pela viúva e mãe, que, no caso, sou eu. Uma pressa em falar para Francisco sobre seu pai, sobre o mundo e sobre mim mesma.

Para conseguir lidar simultaneamente com duas emoções tão fortes e contrárias – de um lado o luto e, de outro, as alegrias da maternidade, ela criou o blog, a fim de contar ao filho as histórias dela e do pai.

Eu não queria deixar de viver o luto porque tinha acabado de me tornar mãe. E não queria deixar de ficar feliz por ter acabado de me despedir do meu amor, conta ela.

Mais tarde, as histórias se transformaram em um livro, intitulado Para Francisco.

Resiliência.

Cada dia é uma nova oportunidade diante dos sonhos a serem realizados, dos objetivos a serem alcançados, dos limites a serem superados.

Os desafios são inúmeros, é verdade. As dores, por vezes, enormes, parecendo quase insuportáveis. As lágrimas, incontáveis.

Todavia, o sofrimento é responsável por nos fazer descobrir quem realmente somos, distanciando-nos das ilusões que possuímos acerca de nós mesmos.

Quando nos julgamos pobres, o desafio das minguadas condições materiais nos ensina que o pouco é sempre mais do que suficiente.

Quando reclamamos de nossa família, imperfeita e desarmoniosa, as lágrimas saudosas do ente querido que retornou para o outro plano da vida nos mostram o quão felizes somos na companhia de nossos familiares.

Quando nos esquecemos dos amigos e, egoístas, nos negamos a estar em sua companhia, a dor da solidão nos recorda de que a mão de Deus nos alcança através do nosso próximo.

A mitologia nos fala de uma ave de penas brilhantes, douradas e vermelho-arroxeadas que, após viver muitos anos, ao se aproximar sua morte, entra em autocombustão, renascendo das próprias cinzas, algum tempo depois.

O que nos falta para renascer, sorrir e sermos felizes?

Podemos, sob a luz da resiliência, transformar as lágrimas ontem derramadas nessa capacidade de enxergar todas as possibilidades do hoje, do amanhã e de nós mesmos.

Pensemos nisso!

 

Redação do Momento Espírita, com base em dados biográficos de Cristiana Guerra

Dores que ensinam

O expediente de trabalho terminara e alguns colegas permaneciam, no local, em conversa amena.

Entre um assunto e outro, um deles comentou a respeito da nova colega.

Dizia que a imaginava um tanto esnobe, pretensiosa mesmo. Porém, se surpreendeu por constatar que, ao contrário do seu conceito preestabelecido, ela se mostrara simples, cordial, amável mesmo.

Os demais acrescentaram comentários, no mesmo sentido, até que foram interrompidos por outro colega.

Eu conheço Sílvia, há bastante tempo, comentou, desde quando éramos adolescentes. Ela veio de uma família abastada. Nunca lhe faltou nada. Teve educação primorosa, frequentando os melhores colégios.

Seu pai, muito amoroso, era também um grande professor da universidade local, respeitado, elegante, um verdadeiro fidalgo.

Foi nesse meio que ela cresceu e sempre se mostrou envaidecida, não somente pelos seus recursos financeiros, também pela família estruturada, um pai amável, o nome de família. Enfim, tudo isso lhe constituía fonte de presunção.

Porém, a vida não lhe foi tão tranquila, na sequência dos anos.

Eram três irmãos, sendo ela a caçula e bem mais nova.

Sua irmã, a primogênita, tinha sérios problemas emocionais. Engravidou cedo, e logo se mostrou totalmente incapaz de criar o filho.

Em razão disso Sílvia assumiu o sobrinho, tomando para si todas as responsabilidades naturais da maternidade.

Os anos se passaram. Seu irmão mais velho, antes dos cinquenta anos, sofreu um grave acidente vascular cerebral (AVC), permanecendo em coma por quatro anos.

Sua esposa, vendo a doença que se estendia, ao longo dos meses, o abandonou.

Os pais precisaram montar todo um aparato, uma verdadeira unidade de terapia intensiva, em casa, a fim de atendê-lo. A fortuna foi sendo dilapidada, pelo custear de tão caro tratamento.

Com a morte do filho e da filha, que sucumbiu, vitimada por um câncer, o pai, alquebrado pelas dores, foi definhando até a morte, como quem houvera desistido de viver.

Dessa forma, Sílvia, de uma família abastada e bem estruturada, viu-se só, responsável pela mãe, às portas da velhice, exigindo-lhe cuidados.

Reencontrei-a há pouco, e percebi que daquela jovem vaidosa, nada permaneceu.

Naturalmente conversamos a respeito da vida, dos anos, e disse-lhe o quanto ficava condoído por tantas dores pelas quais ela houvera passado.

Porém, ao invés de lamúrias, ela me disse:

“Agradeço todas as dores que a vida me ofertou. Elas me deixaram feridas, cicatrizes que, aos poucos, vão se curando.

Mas foram elas quem me ensinaram as melhores virtudes que hoje carrego na alma. As dores me ensinaram a paciência para entender que o tempo de Deus é mais sábio que o tempo de nossa ansiedade.

Ensinaram-me humildade, para perceber que tudo na vida é passageiro, e nada nos pertence.

E, finalmente, me ensinaram a fé, para compreender que tudo está nas mãos de Deus. É Ele quem nos guia pelos melhores caminhos”.

Quando concluiu sua narrativa, um silêncio convidando à reflexão se fez entre os colegas.

Uma reflexão que levava a ponderar como a dor ensina, enobrece, dignifica, quando a sabemos receber com resignação.

Em síntese, quando sabemos dela extrair o melhor, ou seja, quando sabemos bem sofrer.

 

Redação do Momento Espírita, baseado em fato.

O boné dourado

Leila saiu bem cedo para caminhar pelas ruas do bairro, como fazia todas as manhãs.

Levava apenas uma garrafa de água, pendurada numa bolsa a tiracolo. Não usava relógio, pulseira, colar, nada que atraísse a cobiça alheia.

Protegia-se do sol com um boné dourado, que a acompanhava há anos.

Naquela manhã, ao passar por uma alameda, viu um rapaz andando nervosamente em sua direção.

Pressentiu que algo aconteceria. Imediatamente, pareceu ouvir uma voz sussurrando: Você não está só. Confie.

A vida havia ensinado àquela senhora muitas coisas, entre elas, o valor da fé.

O rapaz a abordou, numa postura nada amigável. Mesmo assim, ela sorriu e disse bom dia.

Ele mostrou a arma e mandou que ela entregasse tudo de valor que tivesse.

Serena, Leila mostrou que só carregava a bolsa de crochê com a garrafa d´água.

O jovem se irritou. Ela teve uma inspiração. Tirou o boné da cabeça e disse:

Este boné é valioso. Tem o poder de fazer aflorar o bem e o amor dentro das pessoas. Leve-o e use-o sempre. Ele vai iluminar seus pensamentos.

O assaltante, achando que ela estivesse debochando dele, estava a ponto de perder a paciência. Nisso, o barulho do portão de uma casa, que se abriu ruidosamente, o assustou. Ele agarrou o boné e saiu correndo.

Leila voltou para casa e se recolheu em prece. Agradeceu a Deus pela proteção recebida e pediu-lhe que amparasse aquele jovem que trilhava um caminho tão tortuoso.

Passou a orar por ele, diariamente. Pedia para que seus pensamentos fossem aclarados e que ele tivesse força e ajuda para mudar de vida.

Depois do assalto frustrado daquela manhã, Sidney não conseguia parar de pensar na idosa do boné dourado. A princípio, achou que fosse piada, mas percebeu que tudo mudara depois que ele passara a usar o boné.

Começara a ter pensamentos diferentes. Teve vontade de alterar o rumo da própria vida.

Uma noite, passou em frente a uma casa de oração. Entrou e ouviu a explanação de um trecho do Evangelho. Chorou muito. Identificou-se com o que tinha escutado.

Saiu renovado e desejou compartilhar aquilo com alguém. Mas quem?

Lembrou-se da senhora do boné. Na manhã seguinte, voltou àquela alameda na esperança de reencontrá-la.

Viu-a caminhando e foi, trêmulo, em sua direção. Levava o boné na mão.

Leila o reconheceu. O rapaz contou-lhe o que acontecera, pediu perdão e confirmou que o boné era mágico.

A senhora sorriu e revelou que o boné não tinha poder algum, que o poder de transformação sempre estivera nele mesmo. Simplesmente fora ativado pela força da fé.

Disse que orava por ele todos os dias, enviando-lhe pensamentos positivos. Portanto, o que tivera efeito sobre seus pensamentos foram as orações e a sintonia com o bem.

Sidney ficou assombrado com aquela revelação. Alguém fizera preces em sua intenção, acreditara no bem que havia em seu íntimo e o ajudara a desejar se modificar.

Grande poder da bondade, da prece e da vontade de auxiliar a outrem.

 

Redação do Momento Espírita

O papel da mulher

Quando a jovem, junto a amigos que serviam à comunidade carente, chegou à favela pela primeira vez, ficou chocada.

Ela ouvira falar de miséria e fome. Isso ela podia entender. O desemprego, a falta de habilitação profissional, os limites pessoais daquela gente, no seu modo de ver, poderiam somente conduzi-las àquela situação.

Mas o que a deixou estarrecida foi a sujeira de alguns. O corpo acumulava o pó e o suor de muitos dias. As roupas estavam engomadas de tão sujas, não se podendo identificar com certeza as cores. O mau cheiro era insuportável.

Percebendo o desconforto de Adriana, um dos amigos se aproximou, tentando ajudá-la. Ela aproveitou o momento para desabafar:

Esta gente é muito relaxada! Desde cedo aprendi com minha mãe que a gente pode ser pobre, mas também ser limpo.

Armando a abraçou e lhe disse em voz baixa:

Adriana, estes que estão assim tão descuidados não tiveram mães desveladas como as nossas. Não tiveram quem os ensinasse a se manterem limpos.

Mães são seres especiais. Desempenham junto aos filhos a mais nobre das tarefas que possa ser designada aos seres humanos: ensinar o filho a viver.

São elas que, desde o berço, passam aos pequenos as primeiras e preciosas lições de vida.

São elas que lhes protegem o passo e os disciplinam no dever.

São elas que, desde a amamentação, lhes servem com o leite as noções de Deus, da oração e da moral de Jesus.

Com as primeiras palavras, também as primeiras orações ao Pai e Criador.

No suave aconchego do lar elas lançam as sementes nos corações iniciantes na Terra. Cedo ou tarde, as sementes germinarão.

Mesmo que, eventualmente, os filhos se percam pelas ruas tortuosas do mundo, dia haverá em que recordarão as lições recebidas e retornarão ao caminho da retidão.

Então, amiga, considere que estas criaturas não tiveram os cuidados que nos foram dispensados. Nem tampouco, as orientações que recebemos.

É possível que alguns deles nem tenham a verdadeira noção de lar, de uma família estruturada, de mãe atenciosa.

Pense nisso e comecemos nós, a cada dia, a pouco e pouco, irmos lhes ensinando noções de higiene, de organização, de cuidados.

 

Nada que se imprima nos corações infantis perde-se no tempo. A memória guarda e o coração armazena com um sentimento todo especial.

E, de uma forma singular, quando essas crianças se tornarem pais e mães brindarão seus próprios rebentos com as lições da sua infância e os valores colhidos da boca materna.

O que ensinamos aos nossos filhos são sua melhor proteção contra as tentações e o mal que se encontra no mundo.

Com valores bem definidos, eles terão condições de tomar suas próprias decisões em vez de imitar as modas mais recentes ou colegas nem sempre convenientes.

Ajudar nossos filhos a desenvolver valores morais deve fazer parte do nosso roteiro de educação. Isso é tão importante quanto ensiná-los a ler e a atravessar a rua com segurança.

 

Redação do Momento Espírita

Quando a idade avança

Passamos pela rua e observamos o casal de idosos parado em frente ao posto móvel policial.

Os dois policiais jovens sorriam e respondiam, cordialmente, às questões do senhor e da senhora, ambos de cabeças totalmente nevadas.

O casal não estava ali para reclamar de coisa alguma. Somente desejava estabelecer um diálogo, conversar. Sozinhos, sem ter com quem trocar ideias, em verdade, dialogam com quem quer que lhes possa dar atenção.

Afinal, os filhos, tendo constituído sua própria família, estão distantes. Os amigos partiram quase todos para o mundo do grande Além.

Então, eles puxam conversa com o caixa do supermercado, no ponto de ônibus, na fila do banco, no posto de saúde.

E contam o que aconteceu no dia anterior, o pequeno acidente que quase os fez cair ao solo, os lances do último capítulo da novela, as notícias ouvidas no rádio, há pouco.

Há quem seja gentil e os ouça. Até responda, demonstrando interesse. Mas, nem todos…

Não pudemos nos furtar a tecer um paralelo, lembrando das crianças que saem a passeio e vão cumprimentando quem encontrem pelas ruas.

E insistem no cumprimento até receberem um retorno.  Acenam com a mão, mandam beijos…

É comum acharmos graça, sorrirmos, e devolvermos os cumprimentos.

Difícil não nos encantarmos com a fala delas, que mais parece uma cachoeira despencando pela montanha abaixo.

Isso porque elas desandam a falar sem controle, misturando a narração da história que ouviram na escolinha com os personagens do desenho animado que assistiram, acrescentando ainda seus próprios comentários.

Contam o presente que esperam ganhar no aniversário, a festa que terão com seus amiguinhos.

Por vezes, nem entendemos o todo da fala, mas sorrimos e nos esforçamos para dar uma resposta, fazer um comentário, que não pareça tolo para esses pequenos, que têm uma lógica própria.

E nos encantamos com eles. Crianças, joias de luz espalhadas pela Terra. Raios de sol brilhando nas nossas vidas.

 

Não é estranho que tenhamos tanta boa vontade com a criança e manifestemos enfado com o idoso?

Se atentarmos bem, ambos fazem a mesma coisa, têm a mesma atitude.

Seria interessante que trabalhássemos nossa emoção.

Por que agimos de maneira tão diferente?

A criança é o botão que desabrocha. O idoso é a flor que murchará, logo mais, se não receber a água da ternura, o ar do afago, o sol da compreensão.

A criança necessita de estímulos para se desenvolver. O idoso necessita de atenção para prosseguir a viver, para ter reabastecido o seu bom ânimo.

Olhemos a criança, contemplando o futuro, pensando no amanhã.

Contemplemos o idoso, recordando a semeadura do ontem, o quanto produziu, contribuiu, ao longo dos anos, para a sociedade, para o mundo e o reverenciemos, no hoje.

Ontem eles nos afagaram, nos atenderam, nos ouviram as mil tolices da infância, os queixumes da adolescência. Cabe-nos retribuir um pouco que seja.

Pensemos: se a morte não resolver nos visitar com antecedência, haveremos de chegar lá, um dia.

E, da mesma forma, ansiaremos por quem nos dê atenção, nos ouça, tenha atitude de quem se importa.

Semeemos para colher.

 

Redação do Momento Espírita

A força do amor

Eram noivos e se preparavam para o casamento, quando o pai da noiva descobriu que o rapaz era dado ao jogo.

Decidiu se opor à realização do matrimônio, a pretexto de que o homem que se dá ao vício do jogo jamais seria um bom marido.

Contudo, a jovem obstinada decidiu se casar, assim mesmo. E o conseguiu, fazendo valer a sua vontade, vencendo a resistência do pai.

Nos primeiros dias de vida conjugal, o rapaz se portou como um marido ideal. Entretanto, com o passar dos dias, sentia crescer em si cada vez mais o desejo de voltar à mesa de jogo.

Certa noite, incapaz de resistir, retornou ao convívio de seus antigos companheiros.

Em casa, a jovem tomou de um bordado e ficou aguardando. Embora ocupada com o trabalho manual, tinha os olhos presos ao relógio. As horas pareciam se suceder cada vez mais lentas.

Alta madrugada o marido chegou. Nem disfarçou a sua irritação, por surpreender a companheira ainda em vigília. Logo imaginou que ela o esperava para censurar a sua conduta.

Quando ele a interrogou sobre o que fazia àquela hora acordada, ela, com ternura, disse que estava tão envolvida com seu bordado, que nem se dera conta da hora avançada.

No dia seguinte, quando ele retornou ainda mais tarde da casa de jogo, a encontrou outra vez a esperá-lo.

Outra vez acordada? – Perguntou ele quase colérico.

Não quis que fosse se deitar, sem que antes fizesse um lanche. Preparei torradas, chá quentinho. Espero que você goste.

E, sem perguntar-lhe onde estivera e o que fizera até aquela hora, ela o beijou carinhosamente e se recolheu ao leito.

Na terceira noite, ela o esperou com um bolo delicioso. Antes mesmo que o marido dissesse qualquer coisa, ela se prendeu ao pescoço dele, abraçou-o e pediu que provasse da nova delícia.

Assim, todas as madrugadas, a ocorrência se repetiu. O marido começou a se preocupar.

Na mesa de jogo, tinha o pensamento menos preso às cartas do que à esposa, que o esperava, pacientemente, como um anjo da paz.

Começou a experimentar uma sensação de vergonha, ao mesmo tempo de indiferença e quase repulsa por tudo quanto o rodeava.

O que ele tinha em casa era uma mulher que o esperava, toda madrugada, para o abraçar, dar carinho.

Aos poucos, foi se tornando mais forte aquele incômodo. Finalmente, um dia, de olhar vago e distante, como se tivesse diante de si outro cenário, o rapaz se levantou da mesa de jogo e retirou-se, para nunca mais voltar.

 

Nos dias atuais, é bem comum os casais optarem por se separar, até por motivos quase ingênuos.

Poucas criaturas, em nome do amor, decidem lutar para harmonizar as diferenças, superar os problemas, a fim de que a relação matrimonial se solidifique.

Contudo, quando o amor se expressa, todo o panorama se modifica. É difícil a alma que resista às expressões do amor porque ele é portador da mensagem do bem-estar, da alegria.

Sempre salutar, portanto, investir no amor, expressando-o através de gestos, atenções pequenas, gentilezas.

O amor é o sentimento por excelência e tem a capacidade de transformar situações e pessoas.

Pensemos nisso.

 

Redação do Momento Espírita, com base no cap. A força do amor, do livro O primado do Espírito, de Rubens C. Romanelli, ed. Síntese

A inabalável certeza de Deus

O jovem acreditava ser uma mente brilhante. Elaborava ideias, imergia o pensamento nos livros buscando maior conhecimento. Orgulhava-se de seu saber.

Certo dia, deparou-se com um filósofo que, extasiado ante o espetáculo ímpar da natureza, expressava sua admiração ao Criador:

Quem é Você que está por trás da cortina das nuvens? Por que silencia a Sua voz e grita através dos fenômenos da natureza?

Por que gosta de se ocultar aos olhos humanos? Deixe-me descobri-lo.

O rapaz, com ar de intelectual, lhe disse:

Você está totalmente equivocado. Deus não existe. Ele é uma invenção do cérebro humano para suportar as limitações da vida. A ciência é o Deus do ser humano.

Sem se perturbar, o filósofo respondeu:

Se você me disser que é um ateu, que não crê em Deus, sua atitude é respeitável. Ela reflete sua opinião e sua convicção pessoal. Agora, dizer que Deus não existe é uma ofensa à inteligência, pois reflete uma afirmação irracional.

Não aja como um menino brincando com a ciência e construindo seu orgulho sobre a areia. Você nunca se indagou quem administra este imenso Universo? O porquê de tanta harmonia?

Sua intelectualidade não lhe diz que todo efeito tem uma causa? E que se esse efeito é grandioso, imensurável deve ser a causa?

Percebeu alguma vez os detalhes das folhas de uma palmeira? A perfeição do ovo? O potencial de uma minúscula semente que traz em si a árvore gigantesca?

Já se perguntou quem deu origem a tantas espécies vegetais e animais? A tanta riqueza que se encontra no seio da terra e na profundeza dos mares?

Guarde a certeza de que você pode duvidar de que Deus existe. Mas Deus não duvida de que você existe.

Muitos filósofos acreditavam em Deus. Não tinham medo de argumentar e discutir a respeito.

Afinal, não sabemos quase nada sobre a caixa de segredos da nossa existência. Milhões de livros são como uma gota no oceano.

Somos, em verdade, uma grande pergunta procurando uma resposta. Ou muitas respostas: Quem somos? Para onde vamos? Por que fomos criados?

A ciência é um produto do homem. Use-a, mas não se deixe contagiar pelo vírus do orgulho.

A sabedoria do ser humano não está no quanto ele sabe. Mas no quanto ele tem consciência de que não sabe. A nobreza de um ser humano está na sua capacidade de reconhecer a sua pequenez.

Silenciou o filósofo. O jovem ficou a pensar. Olhou o sol que brilhava forte, sentiu a brisa leve no rosto, ouviu o farfalhar das folhas que se perdiam pelo chão.

E continuou a pensar…

Deus está em toda parte e está dentro de nós. Quando tomamos de uma fruta e nos extasiamos com a sua cor, a sua textura, o seu sabor, estamos sentindo a Divindade.

Quando contemplamos as nuvens imitando andarilhos pelo céu, e as vemos destilar lágrimas generosas sobre a terra, estamos contemplando o cuidado de Deus com Suas criaturas.

No verde das árvores, no vermelho das rosas, nas cores do arco-íris, Deus se manifesta. No dia abençoado, na noite escura.

No rosto das pessoas que passam, nas sementes que brotam – em tudo Deus está. Permitamo-nos descobri-lo.

 

Redação do Momento Espírita, com base no cap. 10 do livro O futuro da Humanidade – a saga de Marco Polo, de Augusto Cury, ed. Sextante

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