Burnout

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Rodrigo Coletty
Psicólogo

6 de junho de 2022

É fato que o trabalho é uma dimensão fundamental em nossas vidas. Isso porque ele nos permite tanto nos sentirmos mais funcionais e úteis, quanto nos sentirmos bem e satisfeitos, na medida em que nos identificamos e vemos sentido dentro da função que exercemos. Sem falar, é claro, na imediata condição de sustento e subsistência que o trabalho possibilita.  

Dessa forma, vemos que o trabalho pode se configurar tanto como um fator positivo e protetivo em nossas vidas, nos trazendo satisfação e bem-estar, quanto como um fator negativo e, portanto, de risco, levando ao estresse e esgotamento. E é justamente sobre este último ponto, quando o trabalho passa a nos fazer mal, que falarei mais neste artigo.

Pois bem, quando isso acontece, ou seja, quando o trabalho em que estamos passa a se tornar pesado e desgastante, seja pelo ambiente como um todo, pelos colegas ou pela pressão que o trabalho traz, sensações de esgotamento, tanto físico quanto emocional, bem como outros sintomas e comorbidades, começam a aparecer, transformando todo o ambiente em torno do trabalho em algo estressante e desgastante. O interessante é que existe uma síndrome que explica e nomeia esse fenômeno, a chamada Síndrome de Burnout.

Essa síndrome foi descrita por um psicólogo, Herbert Freidemburg, que, ao trabalhar em uma clínica com dependentes químicos, em Nova York, no final dos anos 1960, percebeu que a rotina pesada dos atendimentos, os quais se estendiam por horas e demandavam bastante dos funcionários, acabava por esgota-los, tanto fisicamente quanto emocionalmente. Intrigado com esse fenômeno, Freidemburg passou a estuda-lo e a partir de uma gíria que os dependentes químicos que ele atendia utilizavam para o esgotamento após o uso intenso de drogas, denominou o fenômeno como Burnout.

Desde então, essa síndrome tem sido amplamente estudada, inclusive, recentemente tendo sido incluída no manual de Classificação Internacional de Doenças, (CID 11).  De acordo com esse manual, Burnout é caracterizado como uma síndrome de estresse crônico, no ambiente de trabalho, que não foi gerenciado com sucesso.  

Como podemos ver, a descrição é curta e grossa, mas deixa claro que se trata de uma síndrome ligada exclusivamente ao ambiente de trabalho. Interessante notar também que não se trata de uma doença em si, mas de uma síndrome com um conjunto se sintomas os quais podem levar a quadros patológicos, sejam eles clínicos, como doenças cardíacas, por exemplo, ou psíquicos, como uma depressão. 

Importante lembrar também que a Síndrome de Burnout se caracteriza pela presença de três sintomas, os quais devem aparecer juntos para configurar a síndrome, quando separados ou na presença de apenas dois desses sintomas, não se configura como Burnout em si, embora já sejam indícios para se estar alerta sendo possivelmente um pré-bournout, por assim dizer.   Esses sintomas são: um esgotamento, tanto físico quanto emocional, um cinismo e uma perda de rendimento.  

Por esgotamento, já se entende, como o próprio nome diz, que se atingiu um limite, físico e psíquico, diante daquele ambiente estressor do trabalho. Por cinismo, se entende uma indiferença que aquele que passa por essa síndrome passa a adotar com colegas e clientes de seu trabalho, chegando até mesmo a ser mal-educado e agressivo. Aliado a esses dois sintomas mencionados, temos também uma perda de rendimento, ou seja, o sujeito com Burnout passa a não conseguir dar conta de suas atividades, como dava antes.

Com relação às causas que levam a essa síndrome, podem ser as mais variadas, contudo, de acordo com a psicóloga Christina Maslach, especialista no assunto, são seis as principais, a saber:  1) Esgotamento, propriamente dito, pela quantidade de trabalho, ou seja, cargas horárias exageradas. 2) Problemas relacionais no trabalho, como bullying ou segregação, por exemplo. 3) Não identificação com a função exercida no trabalho. 4) Não identificação com a empresa e as políticas que a mesma adota. 5) Sentimento de desvalorização, por ganhar pouco em relação à quantidade de trabalho exigida, por exemplo. 6) Sentimento de ser injustiçado, quando alguém menos competente é promovido em seu lugar, por exemplo.

Se você se identificou com algum desses sintomas ou mesmo com os três, é importante estar atento e se perguntar até que ponto vale a pena continuar em um local que está sendo mais prejudicial do que benéfico a sua saúde, tanto física quanto mental. Pois, por mais que uma psicoterapia e o uso de medicações possam auxiliar na gestão do estresse dentro do ambiente de trabalho, possibilitando a criação de uma maior resiliência para lidar com esse ambiente, lidar com essa síndrome requer também mudanças ambientais e comportamentais, o que muitas vezes pode incluir uma mudança de trabalho ou até mesmo de profissão.

Por fim, fica essa reflexão acerca dessa síndrome tão silenciosa e presente nos dias de hoje, e a importância de não a ignorarmos, para que assim o estresse associado a ela não traga também alguma doença mais séria. Afinal, é importante que um elemento tão necessário e presente em nossas vidas, como o trabalho, seja prazeroso e satisfatório.

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