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Compulsões na pandemia

Compulsões na pandemia

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Rodrigo Coletty
Psicólogo

16 de abril de 2021

Estamos nos defrontando com um difícil cenário no país, hoje, de uma pandemia pouco controlada, com casos e óbitos que têm só aumentado. Dentro desse cenário, e como uma tentativa de responder há alguns sentimentos, já falados aqui, como medo, ansiedade e tristeza, alguns comportamentos mais compulsivos tendem a se intensificar. 

Por comportamentos compulsivos me refiro a alguns hábitos que trazem algum prazer e alívio e que podem, se não tomarmos cuidado, se tornar repetitivos e frequentes, chegando ao ponto de perdermos o controle sobre eles, fazendo com que tenhamos, cada vez mais, a necessidade de realizar esses hábitos, para obtenção desse prazer, bem como nos trazendo uma frustração ao nos percebermos impotentes diante do desejo de cessar estes comportamentos.

O uso do álcool e de outras drogas, da comida, da tecnologia, entre outros, são alguns exemplos desses comportamentos, que se não forem bem administrados, podem se tornar compulsivos.

Nesse sentido, e como mencionado acima, o momento atual de crise sanitária, política e econômica em que vivemos, e os sentimentos que derivam desse contexto, como ansiedade e tristeza, por exemplo, podem favorecer o surgimento ou a intensificação desses comportamentos ditos compulsivos.  Afinal, na medida em que esses comportamentos trazem prazer e uma aparente sensação de alívio, diante de um contexto de vida mais caótico como o atual, alguns limites podem ser quebrados, se não tomarmos cuidado, como, por exemplo, o uso do álcool, que antes era restrito apenas a finais de semana, passar a ser diário e em maior quantidade, ou o uso da comida, que antes era restrito a uma certa dieta ou regulação, agora ser excessivo e desregrado. 

O importante, contudo, é percebermos que por mais que possamos nos sentir bem e relaxados ao beber, por exemplo, e isso até nos auxilie no momento atual, este uso não se configura de fato como uma solução, por diversas razões.

Primeiro, por não parar aí, já que a tendência é que cada vez mais a quantidade e frequência desse uso se torne maior. Segundo, por mascarar as reais condições por traz do sofrimento, ao qual o álcool está trazendo alívio. E, terceiro, pelas consequências clínicas ao organismo que este uso mais abusivo pode trazer.

E a partir dessa percepção, podemos também olhar para nós mesmos e entender até que ponto não estamos rompendo esses limites, até que ponto não estamos nos usando de certos hábitos como uma forma de lidar com questões as quais ainda não trabalhamos ou mesmo como uma espécie de automedicação.

E é justamente essa autoanálise que nos permite tanto reconhecer quando estamos diante de compulsões, quanto fazer as mudanças necessárias em relação a elas, seja diminuindo esses hábitos em um processo de redução de danos e autopercepção ou iniciando algum tipo de tratamento, como no caso em que  não conseguimos sozinhos diminuir esses hábitos ou quando eles  requerem de fato um auxilio, que é o que acontece,  por exemplo,  nos casos de uso prejudicial de álcool e outras drogas. 

Nesse sentido, se fazem necessários o auxílio de um médico psiquiatra para entrar com alguma medicação que alivie tanto a ansiedade quanto a abstinência pela substância em questão e o auxílio de uma psicoterapia para trabalhar as reais causas por traz da compulsão. Esses tratamentos podem ser feitos tanto no particular quanto pelo Centro de Atenção Psicossocial (Caps) pela prefeitura, o qual, embora esteja funcionando de forma restrita por conta da pandemia, está preparado para receber crises decorrentes desses comportamentos compulsivos.  

Por fim, fica, mais uma vez, a necessidade de não deixarmos de nos cuidar, tanto em relação às medidas de proteção para com a Covid, já conhecidas, quanto em relação a nossa subjetividade e saúde mental, para que não sejamos dominados, nem pelos sentimentos negativos que têm circulado atualmente e nem pelos comportamentos que podem surgir a partir desses sentimentos.

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